{"id":16194,"date":"2026-04-29T22:13:25","date_gmt":"2026-04-30T01:13:25","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=16194"},"modified":"2026-04-29T22:13:27","modified_gmt":"2026-04-30T01:13:27","slug":"recepcao-calourosa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/recepcao-calourosa\/","title":{"rendered":"RECEP\u00c7\u00c3O CALO(U)RO(SA)!"},"content":{"rendered":"\n<p>Como de costume, a aula da quinta-feira acabou mais cedo. Eu e meu amigo sempre vamos do campus \u2013 isolado em uma rodovia \u2013 at\u00e9 o centro caminhando, conversando. Quanto menos conseguirmos utilizar do transporte p\u00fablico da cidade, melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s dois somos calouros, e fizemos amizade muito r\u00e1pido. Eu n\u00e3o sei exatamente qual foi essa identifica\u00e7\u00e3o, mas funciona.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Conseguimos. Mais uma semana acabando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E semestre que vem, j\u00e1 n\u00e3o somos mais calouros.<\/p>\n\n\n\n<p>Era verdade. N\u00e3o ser\u00edamos mais calouros, e isso causava uma estranheza. Ser calouro tem suas vantagens. \u00c9 quase como estar realmente vivo pela primeira vez em muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>A faculdade \u00e9 um sonho pra mim e pra tantos outros. Estar aqui, causa uma leveza no corpo. \u00c9 como uma pena caindo de uma altura grande. Quando ela aterrissa, simboliza o fim do ciclo, o momento que colamos o grau e nos tornamos profissionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei \u00e9 uma cidade e tanto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meu amigo comenta isso no momento que entramos na Avenida Leite de Castro. Ele sempre se deslumbra com os fasc\u00ednios da cidade. Hist\u00f3rica no Centro, desenvolvida completamente diferente nos demais bairros.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Pena que \u00e9 t\u00e3o tradicional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O coment\u00e1rio que eu fiz foi amargo. Eu gosto de S\u00e3o Jo\u00e3o, ou melhor, do Campo das Vertentes. \u00c9 uma cidade realmente muito boa, bonita. Mas seu tradicionalismo falha muitas vezes. E \u00e9 esse o meu grande problema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o precisa generalizar as rep\u00fablicas ao restante da cidade. \u2013 Meu amigo comenta, rindo. \u2013 N\u00e3o \u00e9 porque moramos por rep\u00fablicas tradicionais que toda a cidade seja assim.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele tem raz\u00e3o. Eu sei disso. S\u00e3o Jo\u00e3o n\u00e3o foi uma cidade que parou no tempo. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o desenvolvida como deveria, mas tem suas belezas.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa altura, j\u00e1 estamos passando perto de um a\u00e7ougue. J\u00e1 me disseram que \u00e9 um dos melhores da cidade, mas nunca tive curiosidade de parar pra entrar. Mal estou tendo dinheiro pra me manter, quem dir\u00e1 comer carne.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem raz\u00e3o. \u2013 Admito, quase contrariado. \u2013 Pe\u00e7o desculpas por n\u00e3o aceitar ser feito de cabide.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu amigo me olhou com uma express\u00e3o dura. O sarcasmo em minha voz n\u00e3o o agradava. E novamente, ele tinha raz\u00e3o. Eu n\u00e3o sei porque estava descontando meu \u00f3dio nele. Ele sofreu tanto quanto eu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Desculpe. Ainda est\u00e1 fresco na minha mem\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Minha rep\u00fablica se juntou a outras duas rep\u00fablicas pra organizar uma festa. O encontro de tr\u00eas gigantes, com open bar e curti\u00e7\u00e3o garantida.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s calouros fomos avisados que trabalhar\u00edamos no dia. At\u00e9 a\u00ed, tudo normal. Geralmente os calouros ficam no bar, na porta de banheiros. \u00c9 mais uma tradi\u00e7\u00e3o. Fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, at\u00e9 simples, considerando tudo que temos que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia da festa, quando eu e mais seis calouros chegamos, encontramos tudo preenchido. O bar estava com dois veteranos, o banheiro tinha mais dois, e tinha uma equipe de seguran\u00e7a contratada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei pros outros calouros, e nunca vou esquecer a confus\u00e3o no olhar deles. <em>O que raios seria nossa fun\u00e7\u00e3o?<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s fomos o cabide naquele dia. N\u00e3o, eu n\u00e3o estou utilizando uma met\u00e1fora ou um termo diferente pra alguma situa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s fomos literalmente cabides. Sabe aqueles que voc\u00ea deixa atr\u00e1s da porta para pendurar o casaco quando chega da rua?<\/p>\n\n\n\n<p>Era a gente. Sete calouros, na entrada, em p\u00e9, sem poder se movimentar e servindo de cabide para mais de quatrocentas pessoas. Jogavam os casacos, bolsas e o que mais n\u00e3o queriam segurar na gente como se fosse normal. Como se realmente fossemos um cabide.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Est\u00e1 lembrando do dia? \u2013 Meu amigo pergunta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que passamos por uma f\u00e1brica antiga, eu recobrei minha consci\u00eancia. Lembrar daquele dia me deixa com raiva, com \u00e2nsia de mudan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Queria poder fazer alguma coisa. \u2013 Eu falo, desgostoso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Acho que voc\u00ea j\u00e1 fez muito em enfrentar sua rep\u00fablica. \u2013 Ele retrucou, entre um suspiro profundo. \u2013 Te fizeram tomar duas garrafas de vodca de uma vez. Voc\u00ea podia ter entrado em coma alco\u00f3lico, cara. \u00c9 melhor aceitar do que se rebelar e receber puni\u00e7\u00f5es cada vez piores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As garrafas de vodca. Me lembro exatamente do gosto amargo que elas tinham. Era dessas mais baratas, sem nenhuma qualidade. Passei a noite toda abra\u00e7ado no vaso, torcendo pra n\u00e3o precisar procurar a UPA.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Se tivesse parado na vodca. \u2013 Eu comento, com o ressentimento preso em minha voz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora j\u00e1 n\u00e3o estamos mais na Leite de Castro. Entramos em outra avenida, dessa vez, uma bem menor, a Avenida Paulo Freitas. Eu acho ela bonitinha, pra ser sincero. Nada supera as ruas e avenidas do Centro Hist\u00f3rico, mas essa \u00e9 uma das minhas preferidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; A placa foi o menor dos seus problemas, parceiro. \u2013 Meu amigo comentou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu tenho um metro e sessenta e tr\u00eas, cara. \u2013 Eu disse, estressado. \u2013 Aquela placa batia no meu joelho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o era isso que realmente me incomodava em ter que usar aquela placa. Tudo bem que eu mal conseguia ir ao banheiro, porque n\u00e3o podia tirar em momento algum.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o escrito em vermelho vivo foi o que me tirou do s\u00e9rio: <strong><em>Calouro estressadinho. Passe longe!<\/em><\/strong> Todos no Campus riram de mim. Faziam piadas porque eu me recusei a servir de cabide \u00e9 uma festa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Argumentam que \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o. Que se dane a tradi\u00e7\u00e3o. No mundo, tanto se discute sobre isso, e aqui, em uma cidade que evoluiu tanto, nada \u00e9 feito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sei que eu assinei um termo antes de entrar, mas n\u00e3o estava escrito que eu precisaria passar por humilha\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, situa\u00e7\u00f5es que poderiam me levar a um coma alco\u00f3lico e tantas outras.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Aquele trambolho de placa foi realmente tenso. \u2013 Ele admite. \u2013 Mas a vodka foi o mais perigoso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente t\u00ednhamos chegado no Centro Hist\u00f3rico. Nos separamos, seguindo caminhos diferentes. Cheguei em casa, na minha rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo que eu acabei de reclamar perdeu for\u00e7a, perdeu sentido. A raiva ainda estava aqui dentro, mas como meu amigo disse, de nada adiantaria reclamar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanta maravilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Um calouro que foi recebido calorosamente na cidade.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como de costume, a aula da quinta-feira acabou mais cedo. Eu e meu amigo sempre vamos do campus \u2013 isolado em uma rodovia \u2013 at\u00e9 o centro caminhando, conversando. 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