{"id":16190,"date":"2026-04-26T16:04:21","date_gmt":"2026-04-26T19:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=16190"},"modified":"2026-04-26T16:04:23","modified_gmt":"2026-04-26T19:04:23","slug":"campo-minado-ou-liberdade-de-expressao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/campo-minado-ou-liberdade-de-expressao\/","title":{"rendered":"Campo minado ou liberdade de express\u00e3o?\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma an\u00e1lise de como opini\u00e3o se tornou fato\u00a0<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Vincent Otoni                                                                                                                                                                                                       Revis\u00e3o: L\u00eddia Oliveira<\/p>\n\n\n\n<p>De pol\u00edtica \u00e0 cultura, de esporte \u00e0 religi\u00e3o, a desinforma\u00e7\u00e3o acabou com o \u201cbom\u201d do brasileiro. De alguns anos para c\u00e1, tudo que envolve comunica\u00e7\u00e3o como um campo de estudo passou a se tornar conhecido de forma indireta. A maioria das pessoas pode acreditar que nunca ouviu falar sobre isso, mas, na realidade, grande parte dos discursos de \u201cmelhoria de comunica\u00e7\u00e3o\u201d, \u201ccomo se comunicar como um l\u00edder\u201d, ou \u201cinsira aqui algo sobre confian\u00e7a e atitude\u201d fazem parte desse movimento. Ainda que passe despercebido, tudo se trata de uma busca por uma nova forma de se relacionar, de se fazer entender ou de entender o outro. Embora esse tipo de discurso, muitas vezes disseminado por <em>coaches<\/em> sem preparo profissional adequado, possa ser prejudicial, a cr\u00edtica que trago hoje n\u00e3o se apoia somente nisso, mas sim em uma pergunta que tem marcado presen\u00e7a social atualmente: qual \u00e9 o limite para pertencer?<\/p>\n\n\n\n<p>Muito se tem falado sobre as famosas bolhas de opini\u00e3o que, em suma, s\u00e3o os grupos ou locais em que se compartilha o mesmo modo de pensar. No cen\u00e1rio atual, polarizado como ainda estamos como sociedade, apenas essa defini\u00e7\u00e3o pode ser pol\u00eamica por si s\u00f3. Para embasar o significado, explico tamb\u00e9m que o termo foi cunhado por Eli Pariser, ativista e fil\u00f3sofo estadunidense, que pensou inicialmente em \u201cFilter Bubbles\u201d ou bolhas de filtro, em livre tradu\u00e7\u00e3o. O conceito trata-se do isolamento social, e principalmente intelectual, que a grande exposi\u00e7\u00e3o a um \u00fanico tipo de conte\u00fado traz. Mesmo em 2011, com a ascens\u00e3o das redes sociais ainda no in\u00edcio, Pariser pontua algo que, em 2026, faz cada vez mais sentido: o algoritmo se aprimora e mant\u00e9m os usu\u00e1rios alimentados com a informa\u00e7\u00e3o que lhes agrada.\u00a0<br><\/p>\n\n\n\n<p>A capacidade de conex\u00e3o ilimitada, ou a promessa dela, que j\u00e1 foi o objetivo principal da hiperconectividade das redes, e todo o mundo das redes sociais e da tecnologia, que veio para integrar, tornam-se ferramentas para uma segrega\u00e7\u00e3o lenta, minuciosa e discreta. Os grupos, que se formavam aos poucos com o \u201cboom\u201d tecnol\u00f3gico, no in\u00edcio dos anos 2000, consolidaram-se mais tarde em comunidades que a princ\u00edpio existiam para compartilhar opini\u00f5es, olhares e experi\u00eancias, iguais ou distintas. A identifica\u00e7\u00e3o coexistia com a exposi\u00e7\u00e3o ao diferente. O que muda de l\u00e1 para c\u00e1 \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o de uma resposta comportamental \u00e0 \u00e9poca atual; com a exposi\u00e7\u00e3o crescente da vida privada e de uma performance social que vale mais do que o individual, todo teste se torna perigoso, afinal ningu\u00e9m quer errar na frente de uma plateia. Se a vida \u00e9 sempre um espet\u00e1culo, nada pode ser improvisado.<\/p>\n\n\n\n<p>O acesso precoce a uma vida p\u00fablica nas redes sociais, que se observa na gera\u00e7\u00e3o Z (nascidos entre e 1997 e 2010) e na mais nova, gera\u00e7\u00e3o Aplha (de 2010 a 2025), acarreta um contexto de exposi\u00e7\u00e3o expressivo e antecipado. Se a maioria das experi\u00eancias \u00e9 p\u00fablica, e pode receber cr\u00edticas ou elogios, o efeito colateral \u00e9 a necessidade de passar uma imagem ideal aos olhos da maioria. Dessa forma, se o adolescente j\u00e1 convive com um grupo, a tend\u00eancia \u00e9 que ele se comporte de forma que agrade essa comunidade, seja ela f\u00edsica ou virtual, matando a curiosidade e as oportunidades de conviver com novas ideias, o que explica o aumento de jovens que ingressam cedo na vida religiosa ou em um meio pol\u00edtico que siga o tradicionalismo. A necessidade de aprova\u00e7\u00e3o de uma comunidade que preza pelos \u201cbons costumes\u201d se mant\u00e9m estimulada e o ciclo tem continuidade. A organiza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e religiosas mais tradicionais se adapta para falar a l\u00edngua desses jovens, abrindo espa\u00e7o para um n\u00edvel de compreens\u00e3o, que \u00e9 limitado, mas\u00a0 suficiente para gerar o sentimento de pertencimento e, em troca, est\u00e1 firmado o acordo social de excluir e de repudiar quem n\u00e3o faz parte dessa din\u00e2mica.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, o problema n\u00e3o se reduz \u00e0 falta de contato com outras ideias, ele escala para o \u00f3dio disseminado contra elas. O desd\u00e9m e a desconfian\u00e7a imediatos s\u00e3o as melhores formas de prevenir que algu\u00e9m, especialmente um jovem, mude de opini\u00e3o. Retornando ao conceito de bolha de Pariser, entende-se que aquela esfera \u00e9 um ecossistema de cren\u00e7as. Se pensar fora dele \u00e9 ferir a moral que rege todo um grupo, quem se atreve n\u00e3o \u00e9 visto como intelectual ou pensador, e sim como um desertor. Assim, tudo que vem de fora, cada not\u00edcia, estudo, teste ou mensagem, passa a ser n\u00e3o um ponto de vista diferente e v\u00e1lido, mas um ataque ao que aquele indiv\u00edduo j\u00e1 passou a chamar de \u00e9tica. Como em uma luta, quando atacado, a primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 atacar de volta outras bolhas. Acostumadas com o ambiente de hostilidade e com a falta de compreens\u00e3o dos seus pr\u00f3prios ideais, mesmo que sejam progressistas, investem de volta e, assim, mais um embate raso se estabelece.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O ato de questionar tem se tornado cada vez mais sin\u00f4nimo de desrespeito, abandonando o conceito que serve para estampar as bandeiras de ideias: a liberdade de express\u00e3o. Na \u00edntegra, o conceito se traduz como o direito de expressar livremente ideias e pensamentos. No entanto, seu uso j\u00e1 foi t\u00e3o banalizado, que a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se recorda de que a condicional para que essa liberdade realmente exista \u00e9 o respeito.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais clich\u00ea quanto possa soar, a liberdade realmente encontra um limite quando chega ao mesmo direito do outro. A autopreserva\u00e7\u00e3o dos grupos extremistas no ambiente digital relativiza a bel prazer o que \u00e9 e quando ela \u00e9 v\u00e1lida. Com esse n\u00edvel de manipula\u00e7\u00e3o, qualquer ideia \u00e9 justific\u00e1vel se explicada de uma forma convincente o suficiente, e, sobretudo, se for uma forma de defender um ideal identit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado de todo este cen\u00e1rio, o que se v\u00ea atualmente \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que permanece em um n\u00edvel de conhecimento raso porque se aprofundar em qualquer t\u00f3pico pode trazer quest\u00f5es \u201cpol\u00eamicas\u201d demais. Os mais velhos que prezam pela manuten\u00e7\u00e3o do seu modo de pensar seguem repetindo as mesmas ideias e recusando qualquer introdu\u00e7\u00e3o de um novo ideal, a n\u00e3o ser que este os beneficie diretamente, mostrando, tamb\u00e9m, uma \u00edndole negoci\u00e1vel. No fim, isso representa uma popula\u00e7\u00e3o desunida e sem for\u00e7as para sair dos n\u00facleos isolados onde um dia buscaram acolhimento, porque, ainda que n\u00e3o concordem com tudo, o conceito de pertencer a um grupo tornou-se mais importante do que ter uma opini\u00e3o, ou um formato \u00fanico de pensamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A promessa do conforto e da comunidade da tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 rasa, assim como seus argumentos para os que fazem parte dela. Na realidade, n\u00e3o \u00e9 vantajoso mostrar que a manuten\u00e7\u00e3o dessa esfera depende de muitas injusti\u00e7as e atitudes que v\u00e3o contra o car\u00e1ter que eles juram que defendem.<\/p>\n\n\n\n<p>O tradicionalismo brasileiro tem sido uma tentativa desesperada de grupos que v\u00eam desde as oligarquias e se mant\u00eam \u00e0 extrema direita na pol\u00edtica, tais quais os ricos se mantinham \u00e0 direita do rei, na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, apoiando a tradi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 os beneficiava. A diferen\u00e7a \u00e9 que agora a classe trabalhadora tem se juntado para defender um movimento que n\u00e3o a beneficia, mas usa a f\u00e9 e a moral como engrenagem para funcionar. A pergunta que fica \u00e9: o quanto de si o brasileiro est\u00e1 disposto a negociar para fingir pertencer?<\/p>\n\n\n\n<p><br><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma an\u00e1lise de como opini\u00e3o se tornou fato\u00a0 Por Vincent Otoni Revis\u00e3o: L\u00eddia Oliveira De pol\u00edtica \u00e0 cultura, de esporte \u00e0 religi\u00e3o, a desinforma\u00e7\u00e3o acabou com o \u201cbom\u201d do brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16191,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"cybocfi_hide_featured_image":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16190","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16190","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16190"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16190\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16192,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16190\/revisions\/16192"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16191"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16190"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16190"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16190"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}