{"id":16046,"date":"2026-03-13T08:59:00","date_gmt":"2026-03-13T11:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=16046"},"modified":"2026-03-13T21:27:27","modified_gmt":"2026-03-14T00:27:27","slug":"o-silencio-dos-animais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/o-silencio-dos-animais\/","title":{"rendered":"O sil\u00eancio dos animais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Tomaz Jaeger<\/p>\n\n\n\n<p>Na madrugada de 4 de janeiro, em uma praia de Florian\u00f3polis, um cachorro comunit\u00e1rio chamado Orelha foi agredido brutalmente. O animal, que vivia cerca de dez anos sendo cuidado por moradores, foi encontrado gravemente ferido e levado a uma cl\u00ednica veterin\u00e1ria, mas n\u00e3o resistiu aos ferimentos causados por um objeto contundente na cabe\u00e7a. A investiga\u00e7\u00e3o apontou o envolvimento de adolescentes, e o caso rapidamente se tornou s\u00edmbolo nacional da luta contra maus-tratos a animais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Orelha n\u00e3o tinha um dono, mas tinha uma comunidade inteira. Moradores constru\u00edram casinhas, levavam comida, o chamavam pelo nome. Era ele, de certa forma, um componente da rotina daquele lugar. Talvez seja por isso que sua morte tenha provocado uma onda de indigna\u00e7\u00e3o em todo o pa\u00eds, com protestos e debates sobre a puni\u00e7\u00e3o para crimes contra animais. A hist\u00f3ria de Orelha n\u00e3o termina em Florian\u00f3polis. Ela ecoa em muitas cidades brasileiras, inclusive na nossa S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem caminha pelas ruas hist\u00f3ricas da cidade mineira, logo percebe que os animais fazem parte do cen\u00e1rio urbano. Nos becos de pedra, nas escadarias das igrejas e nas pra\u00e7as, c\u00e3es e gatos dividem espa\u00e7o com estudantes, turistas e moradores. Alguns t\u00eam dono, j\u00e1 outros pertencem a todos e a ningu\u00e9m ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem deixe \u00e1gua em potes improvisados na porta de casa. H\u00e1 quem carregue ra\u00e7\u00e3o na mochila. H\u00e1 tamb\u00e9m quem desvia o olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema dos maus-tratos raramente aparece em manchetes locais, mas existe na rotina silenciosa em que c\u00e3es s\u00e3o abandonados depois de crescerem demais, gatos s\u00e3o envenenados em terrenos baldios, e animais atropelados ficam horas esperando socorro. A viol\u00eancia, muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 como no caso que chocou o pa\u00eds. Ela \u00e9 cotidiana, justamente por isso t\u00e3o invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os animais urbanos vivem no limite da nossa toler\u00e2ncia. Enquanto alguns moradores os tratam como parte da comunidade, outros os veem apenas como um inc\u00f4modo. Entre esses dois extremos, surgem hist\u00f3rias de cuidado e tamb\u00e9m de crueldade. Casos como o de Orelha escancaram uma pergunta s\u00e9ria: <strong>que tipo de sociedade se revela na forma como tratamos os seres que dependem de n\u00f3s?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em cidades como S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, a resposta aparece em pequenos gestos di\u00e1rios: no estudante que leva um cachorro ferido ao veterin\u00e1rio, na senhora que alimenta gatos na pra\u00e7a todas as tardes. Ou tam\u00e9m, infelizmente, na indiferen\u00e7a de quem passa por um animal sofrendo e continua andando.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a li\u00e7\u00e3o mais dura do epis\u00f3dio de Florian\u00f3polis seja justamente que a viol\u00eancia contra animais n\u00e3o come\u00e7a com um ato extremo. Ela inicia muito antes, na banaliza\u00e7\u00e3o do sofrimento. Enquanto houver sil\u00eancio diante disso, sempre haver\u00e1 outro &#8220;Orelha&#8221; esperando por justi\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Orelha n\u00e3o tinha um dono, mas tinha uma comunidade inteira. 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