{"id":15389,"date":"2025-08-18T08:04:00","date_gmt":"2025-08-18T11:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=15389"},"modified":"2025-08-18T13:58:22","modified_gmt":"2025-08-18T16:58:22","slug":"vivencias-e-desafios-da-comunidade-lgbtqiapn-em-sao-joao-del-rei","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/vivencias-e-desafios-da-comunidade-lgbtqiapn-em-sao-joao-del-rei\/","title":{"rendered":"Viv\u00eancias e desafios da comunidade LGBTQIAPN+ em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><em>Relatos exp\u00f5em a falta de aplica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas e um longo caminho em busca de espa\u00e7o na cidade<\/em><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Alice Franco, Dirceu Vieira, Guilherme Mendes, L\u00eddia Oliveira e Paulo Mambelli<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-1-DIRCEU-VIVENCIAS-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15390\" style=\"width:469px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-1-DIRCEU-VIVENCIAS-1024x1024.jpg 1024w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-1-DIRCEU-VIVENCIAS-300x300.jpg 300w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-1-DIRCEU-VIVENCIAS-150x150.jpg 150w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-1-DIRCEU-VIVENCIAS-768x768.jpg 768w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-1-DIRCEU-VIVENCIAS-1536x1536.jpg 1536w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-1-DIRCEU-VIVENCIAS.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Bandeiras do orgulho (Pride flags) simbolizam a diversidade de g\u00eaneros e sexualidades da comunidade LGBTQIAPN+. Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Wikimedia Commons<br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Em junho, m\u00eas do orgulho LGBTQIAPN+, na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, o vereador bolsonarista Rafael Lima indicou o deputado conservador Nikolas Ferreira ao t\u00edtulo de cidad\u00e3o honor\u00e1rio s\u00e3o-joanense e \u00e0 medalha Tancredo Neves, representando este fato mais um desafio \u00e0 cidadania LGBTQIAPN+ no munic\u00edpio. Uma vez que o deputado em quest\u00e3o j\u00e1 foi condenado na justi\u00e7a por pr\u00e1ticas consideradas discriminat\u00f3rias, tal proposta contraria a Lei Rosa, sancionada na cidade, que disp\u00f5e a\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio contra pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias por orienta\u00e7\u00e3o afetivo-sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo per\u00edodo, a aprova\u00e7\u00e3o do \u201cDia Municipal dos Legend\u00e1rios\u201d gerou pol\u00eamica ao oficializar no calend\u00e1rio da cidade um movimento de origem religiosa que promove uma vis\u00e3o tradicional de masculinidade. Criado na Guatemala e difundido entre jovens evang\u00e9licos no Brasil, o grupo \u00e9 composto majoritariamente por homens cisg\u00eanero, brancos e heterossexuais, e representa uma l\u00f3gica normativa que contrasta com a diversidade presente no munic\u00edpio. Enquanto movimentos conservadores ganham reconhecimento institucional, grupos historicamente marginalizados, como a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+, continuam sem estrutura de apoio, pesquisas e apura\u00e7\u00f5es oficiais, e at\u00e9 mesmo secretarias dedicadas \u00e0 escuta e prote\u00e7\u00e3o. A realidade not\u00f3ria escancara a disparidade simb\u00f3lica e pol\u00edtica entre quem \u00e9 celebrado pelo poder p\u00fablico e quem segue \u00e0 margem, lutando diariamente por visibilidade e direitos b\u00e1sicos.<br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O patriarcalismo no Brasil e como esse sistema ainda reproduz a homofobia<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Um grande fator que contribui para a LGBTQIAPN+fobia \u00e9, sem sombra de d\u00favidas, o patriarcalismo. Trata-se de um sistema social, pol\u00edtico e cultural em que homens (geralmente mais velhos e heterossexuais) s\u00e3o considerados chefes da fam\u00edlia, religiosos, da pol\u00edtica e da economia. A princ\u00edpio, tanto pelo nome quanto pelo conceito, o que se imagina \u00e9 que somente mulheres sejam afetadas pela exist\u00eancia desse mal, mas a verdade \u00e9 que as normas de g\u00eanero ditadas pelas imposi\u00e7\u00f5es patriarcais acabam exaltando a masculinidade e apagando a pluralidade de g\u00eanero, afetando tanto a comunidade LGBTQIAPN+ quanto tamb\u00e9m quem propaga e \u00e9 beneficiado pelo sistema patriarcal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao impor pap\u00e9is fixos para homens (forte, dominante, provedor e heterossexual) e mulheres (submissa, cuidadora, passiva e heterossexual), quem foge desses padr\u00f5es \u00e9 visto como amea\u00e7a \u00e0 ordem patriarcal. A consequ\u00eancia \u00e9 observada na homofobia; um homem gay que demonstra afeto com seu parceiro acaba sendo rotulado como menos homem dentro do modelo patriarcal. Rela\u00e7\u00f5es l\u00e9sbicas, por sua vez, s\u00e3o tamb\u00e9m invalidadas e muitas vezes fetichizadas, tendo em vista que o rompimento com rela\u00e7\u00e3o aos moldes estabelecidos pelo patriarcado \u00e0s mulheres \u00e9 tido como amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, o patriarcalismo sustenta a homofobia porque ambos s\u00e3o mecanismos de manuten\u00e7\u00e3o de poder masculino heterossexual sobre os corpos e desejos das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contexto jur\u00eddico<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Mesmo com leis nacionais que visam \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de grupos LGBTQIAPN+ minorizados socialmente, o Brasil segue sendo o pa\u00eds que mais mata membros dessa popula\u00e7\u00e3o, segundo o Dossi\u00ea de LGBTIfobia Letal, do Observat\u00f3rio de Mortes e Viol\u00eancias LGBTI+ no Brasil. S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, por sua vez, parece refletir essa realidade, embora haja dificuldade em se encontrar registros desse tipo de viol\u00eancia na cidade e haja certeza de subnotifica\u00e7\u00f5es, uma vez que muitas pessoas LGBTQIAPN+ agredidas na cidade s\u00e3o dissuadidas de prestar queixa ou de procurar outros meios legais. Isso ocorre devido \u00e0 descren\u00e7a de membros da comunidade LGBTQIAPN+ nas institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pela prote\u00e7\u00e3o e pela plena dignidade dessa parcela cidad\u00e3. Exemplo desse cen\u00e1rio de desproporcionalidades ocorreu na madrugada do dia 3 de julho, quando uma mulher transexual foi brutalmente agredida em p\u00fablico, na Rua da Cacha\u00e7a, na presen\u00e7a de outras pessoas e, inclusive da Pol\u00edcia Militar, que n\u00e3o interferiu na situa\u00e7\u00e3o. Esse fato comprova a inefic\u00e1cia e a aus\u00eancia de aplica\u00e7\u00e3o de medidas p\u00fablicas voltadas para a seguran\u00e7a e a prote\u00e7\u00e3o de pessoas LGBTQIAPN+ no munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei tem um marco importante na luta pelos direitos LGBTQIAPN+: tr\u00eas leis municipais que reconhecem e protegem a diversidade sexual e de g\u00eanero. A primeira delas, a Lei n\u00ba 4.172, de 2007, determina que o munic\u00edpio deve atuar contra qualquer forma de discrimina\u00e7\u00e3o por orienta\u00e7\u00e3o sexual. Em 2011, a Lei n\u00ba 4.702 instituiu o Dia Municipal da Parada da Cidadania e do Orgulho LGBT, legitimando a visibilidade e a celebra\u00e7\u00e3o da diversidade. J\u00e1 em 2013, foi criada a Lei n\u00ba 4.930, que estabelece o <a href=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/conferencia-regional-discute-direitos-lgbt-em-sao-joao-del-rei\/\">Conselho Municipal<\/a> dos Direitos de L\u00e9sbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, um espa\u00e7o pol\u00edtico de participa\u00e7\u00e3o e monitoramento de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas leis representam avan\u00e7os importantes no papel do poder p\u00fablico, mas, na pr\u00e1tica, t\u00eam sido ignoradas. Muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o aplicadas com regularidade, n\u00e3o contam com or\u00e7amento pr\u00f3prio nem com campanhas permanentes de conscientiza\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, leis inexpressivas, como a j\u00e1 citada, que cria o \u201cDia dos Legend\u00e1rios\u201d,&nbsp; ganham divulga\u00e7\u00e3o, apoio para eventos e destaque na m\u00eddia local.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa desigualdade na valoriza\u00e7\u00e3o das leis reflete uma l\u00f3gica pol\u00edtica conservadora, pela qual leis simb\u00f3licas para grupos minorizados s\u00e3o tratadas como \u201cirrelevantes\u201d. J\u00e1 projetos que refor\u00e7am uma hegemonia religiosa ou cultural s\u00e3o celebrados, mesmo sem impacto coletivo social real. A popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+, portanto, n\u00e3o sofre apenas com a aus\u00eancia de novas leis, mas com o esquecimento institucional daquelas que j\u00e1 existem.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 apenas na legisla\u00e7\u00e3o, mas na falta de vontade pol\u00edtica de torn\u00e1-la viva. Enquanto o Conselho LGBTQIAPN+ n\u00e3o se re\u00fane,  a <a href=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/semana-da-visibilidade-lgbt-colore-e-conscientiza-sao-joao-del-rei\/\">Parada<\/a> do Orgulho LGBTQIAPN+ \u00e9 tratada \u00fanica e exclusivamente como \u201cfesta\u201d e o combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 restrito ao papel, os direitos da comunidade continuam sendo negligenciados e isso diz muito sobre as prioridades de uma cidade que insiste em invisibilizar aqueles que mais precisam ser ouvidos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Vozes da diversidade<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-2-DIRCEU-VIVENCIAS-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-15391\" style=\"width:446px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-2-DIRCEU-VIVENCIAS-1024x1024.png 1024w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-2-DIRCEU-VIVENCIAS-300x300.png 300w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-2-DIRCEU-VIVENCIAS-150x150.png 150w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-2-DIRCEU-VIVENCIAS-768x768.png 768w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/FOTO-2-DIRCEU-VIVENCIAS.png 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pessoas da comunidade relatam sobre suas viv\u00eancias. Fotos: Dirceu Vieira \/ Arquivo pessoal. Arte: Paulo Mambelli<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>A reportagem conversou com pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei para conhecer suas hist\u00f3rias, suas opini\u00f5es sobre o contexto sociopol\u00edtico local e para compreender de que maneira, na experi\u00eancia de vida dessas pessoas, tem se realizado a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico. S\u00e3o diferentes hist\u00f3rias, mem\u00f3rias e atua\u00e7\u00f5es no munic\u00edpio, ampliando o horizonte quando se trata da diversidade de vozes que comp\u00f5em a cidade e a constru\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 s\u00e3o-joanense.<\/p>\n\n\n\n<p>O munic\u00edpio conta com as a\u00e7\u00f5es do Movimento de Direitos Humanos de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei (MDH\/SJDR) &#8211; organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental que atua, h\u00e1 18 anos, na defesa dos direitos humanos de l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e pessoas intersexo. No contexto da comunidade, Rodrigo Gon\u00e7alves de Carvalho, ator, professor de teatro, advogado e presidente da comiss\u00e3o de diversidade da 37\u00aa subse\u00e7\u00e3o da OAB\/MG de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, mestrando em artes c\u00eanicas e trabalhador como motorista de aplicativo, comenta sobre sua experi\u00eancia como membro do Movimento LGBTI+ na cidade de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei. Al\u00e9m disso, revela como \u00e9 a sua atua\u00e7\u00e3o no grupo MDH\/SJDR, no qual \u00e9 o vice-presidente h\u00e1 quase dois anos, e como s\u00e3o enfrentados os empecilhos jur\u00eddicos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade. Um dos desafios que Rodrigo pontua \u00e9 a falta de recursos, que dificulta a materializa\u00e7\u00e3o das propostas do grupo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Rodrigo reflete sobre os entraves enfrentados na busca por direitos das pessoas LGBTQIAPN+, como o nome social para as pessoas trans. Conforme afirma, \u201cnos \u00faltimos anos, a nossa briga foi mais por a\u00ed. Tentando conversa com o judici\u00e1rio, com o cart\u00f3rio de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, e nem sempre foi f\u00e1cil. Tudo para a gente n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, a gente teve v\u00e1rias barreiras a\u00ed tamb\u00e9m.\u201d O professor relembra os processos da ONG nesses 18 anos de exist\u00eancia e destaca que, no in\u00edcio, a ideia era promover a visibilidade das pessoas l\u00e9sbicas e gays. Hoje, conforme Rodrigo relata, as quest\u00f5es das pessoas trans t\u00eam sido destaque, sobretudo pela falta de entendimento e pelo preconceito social acerca dessas viv\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fator de invisibilidade da comunidade LGBTQIAPN+ \u00e9 a falta de espa\u00e7os para que a comunidade possa circular e divertir-se sem medos. Rodrigo compara os antigos espa\u00e7os espec\u00edficos para as pessoas LGBT aos atuais: \u201ca gente tem hoje em dia alguns locais que s\u00e3o, podemos dizer, alternativos, mas que n\u00e3o s\u00e3o exclusivamente LGBTQIAPN+; os que a gente tinha em S\u00e3o Jo\u00e3o nunca eram no centro. \u00c9 sempre escondido, isolado, a gente tinha que entrar como se estivesse escondendo alguma coisa mesmo, porque era essa a realidade.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa reflex\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 feita pela professora Aline Marques, m\u00e3e e l\u00e9sbica, a qual afirma que sua viv\u00eancia na cidade \u00e9 bem tranquila, que ela e a esposa nunca foram desrespeitadas nos espa\u00e7os que ocupam, mas ressaltam que faltam lugares onde consigam se sentir \u00e0 vontade para serem quem s\u00e3o e para demonstrarem afeto em p\u00fablico. Segundo a educadora, \u201cmesmo n\u00e3o tendo sofrido nenhum tipo de xingamento ou agress\u00e3o f\u00edsica, os olhares s\u00e3o sempre recriminat\u00f3rios\u201d, relatando o desconforto sentido durante a circula\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os p\u00fablicos de lazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre os direitos ao lazer e \u00e0 circula\u00e7\u00e3o segura e igualit\u00e1ria, a professora enfatiza que n\u00e3o h\u00e1 programas, na cidade, voltados exclusivamente ao atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. De acordo com Aline, \u201cos ambientes h\u00e9teros n\u00e3o s\u00e3o programados para n\u00f3s, n\u00e3o temos os mesmos gostos, mesmo eu amando sertanejo, o ambiente das festividades e comemora\u00e7\u00f5es n\u00e3o nos deixa confort\u00e1veis.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a falta de espa\u00e7os confort\u00e1veis, ressaltada por Aline, Rodrigo comenta sobre a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o da Parada LBGT desde 2016 em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, reafirmando que a falta de recursos tem impedido a realiza\u00e7\u00e3o do evento. Para o professor, as paradas t\u00eam papel pol\u00edtico de ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os e de luta por direitos. No entanto, a ONG n\u00e3o possui renda suficiente para que o evento se realize, dependendo de verbas, como emendas de deputados, para que a a\u00e7\u00e3o seja feita. Rodrigo destaca: \u201ca gente sabe a import\u00e2ncia da parada, n\u00e3o s\u00f3 politicamente, mas tamb\u00e9m para quem \u00e9 da nossa comunidade se sentir pertencente. Perceber que, em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, uma cidade do interior de Minas, conservadora para caramba, pode sim haver um movimento forte nas ruas onde a gente pode ser quem somos.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta de verbas e \u00e0s necessidades da ONG para que o espa\u00e7o p\u00fablico seja ocupado, de forma segura, pela comunidade, Rodrigo destaca a dificuldade de dialogar com o setor pol\u00edtico-administrativo atual: \u201ceu acho extremamente dif\u00edcil, para n\u00e3o falar imposs\u00edvel, dessa prefeitura atual cooperar com a gente, por quest\u00f5es partid\u00e1rias mesmo. A gente sabe que o partido que est\u00e1 a\u00ed \u00e9 um partido que \u00e9 ultraconservador, de direita, um partido que tem como lema f\u00e9 e trabalho. A gente entende que, na nossa quest\u00e3o, vai ser um choque muito grande e \u00e9 poss\u00edvel a recusa de nos ajudar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de di\u00e1logo e de interesse pol\u00edtico nas quest\u00f5es de gays, l\u00e9sbicas, transexuais, pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias, bissexuais, queer, assexuais e intersexuais agrava o atendimento aos <a href=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/vereadores-aprovam-criacao-de-conselho\/\">direitos sociais<\/a> em diferentes \u00e2mbitos, como pontuado por Thales Gabriel Trindade de Moura, homem trans que vive na cidade h\u00e1 13 anos. Thales \u00e9 professor e destaca as dificuldades de acesso ao sistema de sa\u00fade em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei durante seu processo de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Segundo o educador: \u201cna parte de sa\u00fade, necessariamente, eu n\u00e3o tenho um atendimento direcionado, eu fa\u00e7o um acompanhamento pelo ambulat\u00f3rio trans em Belo Horizonte, no Hospital Eduardo de Menezes\u201d. Devido \u00e0 sua identidade de g\u00eanero, Thales ressalta que a cidade n\u00e3o tem apresentado condi\u00e7\u00f5es de garantir a seguran\u00e7a \u00e0s pessoas trans, fator motivado por aspectos culturais e religiosos fortemente imbricados no contexto da regi\u00e3o. Para o docente, \u201ctudo isso est\u00e1 relacionado \u00e0 quest\u00e3o cultural, machista, que aqui est\u00e1 muito presente, mas tem tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 muito forte, que adiciona sobre essas viv\u00eancias um qu\u00ea de culpabilidade, do que \u00e9 errado, do que n\u00e3o pertence ao que est\u00e1 certo, que n\u00e3o \u00e9 de Deus.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As pol\u00edticas p\u00fablicas, segundo o professor, s\u00e3o determinantes para que esse cen\u00e1rio mude, mas ainda existem barreiras quanto a isso: \u201cmuitas vezes, esses governos n\u00e3o querem se relacionar com essas pautas, porque acreditam que essas pautas s\u00e3o pol\u00eamicas, elas trazem muita diverg\u00eancia para dentro ali do seu governo. Podem trazer em algum momento, tirar eleitores, mas essas pessoas existem, elas est\u00e3o circulando na cidade, elas est\u00e3o pagando os seus impostos, elas est\u00e3o fazendo o com\u00e9rcio girar, e a quest\u00e3o dos seus direitos fica onde?\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao direito de ir e vir com seguran\u00e7a, Thales refor\u00e7a que s\u00e3o muitas as viol\u00eancias perpetradas por esse preconceito, em muitos casos, opressor: \u201ctudo isso recai sobre a quest\u00e3o da viol\u00eancia, de alguma forma, que n\u00e3o \u00e9 viol\u00eancia f\u00edsica, mas a viol\u00eancia psicol\u00f3gica, que, nem por isso, \u00e9 menos problem\u00e1tica, porque pode fazer com que a pessoa se autoviolente, ela cause sobre ela alguma viol\u00eancia f\u00edsica\u201d. Os apontamentos de Thales ganham mais for\u00e7a quando se analisam os \u00edndices de mortes relacionadas \u00e0 transfobia em \u00e2mbito nacional. Conforme dados da Ag\u00eancia Brasil, o pa\u00eds ocupa a lideran\u00e7a do ranking de assassinatos h\u00e1 17 anos, com 105 mortes no ano de 2024.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Thales, em sua viv\u00eancia como uma pessoa trans, comenta as in\u00fameras experi\u00eancias violentas que s\u00e3o naturalizadas em rela\u00e7\u00e3o a ele e a seus pares: \u201cquando voc\u00ea chega num local e fala que voc\u00ea tem um corpo diferente, mas que voc\u00ea precisa daquele atendimento m\u00e9dico, e a\u00ed as pessoas t\u00eam a capacidade de virar para voc\u00ea e dizer, ah, mas eu n\u00e3o atendo, n\u00e3o fa\u00e7o esse tipo de atendimento, como se o seu corpo fosse um corpo que n\u00e3o existisse, materialmente ali na frente dela.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que esperar do poder legislativo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Em busca de respostas, a reportagem, em encontro com a vereadora Cassi Pinheiro (PT), mulher cisg\u00eanero, m\u00e3e e l\u00e9sbica, questionou a falta de dados concretos sobre a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+ na regi\u00e3o e os impasses relacionados \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas para a comunidade. A vereadora adiciona que essa \u00e9 uma quest\u00e3o de \u00e2mbito nacional: \u201cacho que a gente tem dificuldade de acessar os n\u00fameros, mesmo porque n\u00e3o h\u00e1 quem fa\u00e7a essa m\u00e9trica. A gente precisa de fato que as pol\u00edticas se estruturem para olhar para essa comunidade, que os institutos entendam que existe uma necessidade de voc\u00ea colocar essa popula\u00e7\u00e3o como uma popula\u00e7\u00e3o que precisa ser olhada sob um determinado recorte\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos entraves ligados \u00e0 comunidade trans, Cassi aponta: \u201cagora, da comunidade trans, eu acho que as demandas que t\u00eam chegado t\u00eam um pouco a ver com uma resposta a tentativas que vieram sendo feitas por vereadores da extrema-direita aqui em S\u00e3o Jo\u00e3o, que propuseram, acho que j\u00e1 foram dois projetos apresentados nessa linha que atacam diretamente a comunidade trans. Eles n\u00e3o chegaram a vir para a vota\u00e7\u00e3o exatamente porque houve uma mobiliza\u00e7\u00e3o. Eu fui procurada, disseram, voc\u00ea precisa se posicionar, voc\u00ea \u00e9 nossa representante, a gente vai precisar do seu apoio, e a\u00ed eu dei o meu apoio sempre, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma coisa, para mim n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o, eu vou estar sempre do lado da comunidade trans, das pessoas LGBTQIAPN+.\u201d Tal apontamento sinaliza que, al\u00e9m de n\u00e3o haver um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico espec\u00edfico para o atendimento da comunidade LGBTQIAPN+, ainda existem tentativas pol\u00edticas de atacar os poucos direitos dessa parcela da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o-joanense.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A import\u00e2ncia da informa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio de impedimentos hist\u00f3ricos e pol\u00edticos, J\u00fapiter Por\u00e3 Ribeiro de Oliveira, que vive em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei h\u00e1 oito anos, relata suas experi\u00eancias, possibilidades e dificuldades como pessoa trans n\u00e3o-bin\u00e1rie. Cabeleireiro, formado em Filosofia e estudante de Comunica\u00e7\u00e3o Social (Jornalismo), J\u00fapiter conta como foi se mudar para a cidade: \u201cao mesmo tempo que eu ia descobrindo a cidade, eu ia me descobrindo tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, foi uma dupla descoberta e a\u00ed eu consegui achar um equil\u00edbrio gostoso de n\u00e3o s\u00f3 ser uma pessoa LGBT e falar sobre as mazelas da nossa comunidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sua atua\u00e7\u00e3o profissional, tanto como cabeleireiro quanto como comunicador, abre espa\u00e7os para que J\u00fapiter possa fazer palestras e estar em constante contato com pessoas da comunidade e fora dela. \u201cEu uso esses espa\u00e7os que me s\u00e3o cedidos para poder trazer um pouco da minha experi\u00eancia. Porque quando voc\u00ea fala de pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias tamb\u00e9m, ainda \u00e9 um susto para muita gente\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudante explica como o processo de conhecimento e de debate \u00e9 importante para que exista informa\u00e7\u00e3o e menos preconceito e estere\u00f3tipo social: \u201ca partir do momento que eu vou me descobrindo, que eu vou estudando sobre mim, a minha \u00e1rea de pesquisa \u00e9 toda voltada nessa quest\u00e3o de pessoas trans e quest\u00e3o de n\u00e3o binariedade, eu uso disso para me descobrir e, a partir desse momento, me colocar enquanto cidad\u00e3o e informar as pessoas sobre as coisas. E a partir das minhas viv\u00eancias, n\u00e3o necessariamente sobre o meu g\u00eanero, eu consigo ter uma conversa mais direta com algu\u00e9m e explicar um pouco mais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00fapiter amplia o debate acerca dos espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o da comunidade LGBTQIAPN+ em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, ao apontar os fatores interseccionais que perpassam os grupos sociais. A interseccionalidade, termo cunhado por Kimberl\u00e9 Crenshaw em 1989, refere-se ao fato de que as identidades s\u00e3o afetadas por diferentes opress\u00f5es que se combinam para oprimir determinadas parcelas da sociedade. Isso se exemplifica, no Brasil, pelo racismo, pela misoginia e pela desigualdade social, que podem atingir grupos minorizados em diferentes camadas. Como afirma J\u00fapiter a respeito dos espa\u00e7os de ocupa\u00e7\u00e3o e do direito de ir e vir na cidade, \u201cantes de tudo, antes de ser uma pessoa trans n\u00e3o bin\u00e1ria, antes de ser qualquer coisa, eu sou uma pessoa negra. E, quando a gente fala sobre racismo, j\u00e1 vem muitas quest\u00f5es. Ent\u00e3o, o lugar para mim nunca foi uma coisa dada. Eu tive muito que conquistar o meu lugar por ser uma pessoa negra.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para J\u00fapiter, os espa\u00e7os que conquistou s\u00e3o fruto de muitas lutas hist\u00f3ricas, que possibilitaram sua exist\u00eancia e seus acessos na atualidade. \u201cEnt\u00e3o, essa quest\u00e3o de me reafirmar nos lugares, eu n\u00e3o pe\u00e7o mais que as pessoas me aceitem, sabe? Porque me aceitar ou n\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um direito seu, \u00e9 um direito meu, sabe? Ent\u00e3o, independente de voc\u00ea gostar de mim ou n\u00e3o, de se sentir confort\u00e1vel ou n\u00e3o, eu aprendi na minha exist\u00eancia que eu tenho que estar nesses lugares\u201d, relata. J\u00fapiter acrescenta que o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior n\u00e3o era uma possibilidade social imaginada para pessoas como ele, na perspectiva da sociedade, e que ter cursado uma faculdade e estar cursando outra lhe trouxe mais condi\u00e7\u00f5es financeiras em um processo de busca constante.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Os relatos de diferentes pessoas da comunidade apontam para um longo caminho em busca da materializa\u00e7\u00e3o dos direitos <a href=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/historias-queer-podcast\/\">LGBTQIAPN+ na cidade de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei<\/a>. Enquanto leis que fomentam exclus\u00f5es s\u00e3o facilmente discutidas e aplicadas, uma parcela segue invisibilizada, procurando abrir espa\u00e7os para que suas <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=mYQd7HsvVtI&amp;list=RDmYQd7HsvVtI&amp;start_radio=1\">vozes<\/a> sejam ouvidas. Lugares de acesso e de <a href=\"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/podcast-da-van-novo-episodio-aborda-a-potente-cultura-ballroom-em-sao-joao-del-rei\/\">pertencimento<\/a>, como o Movimento de Direitos Humanos de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, s\u00e3o essenciais na busca por uma exist\u00eancia digna e segura. \u201cA ONG \u00e9 um movimento coletivo, que s\u00f3 tem for\u00e7a no coletivo, ent\u00e3o, quanto mais pessoas chegarem, melhor para a gente e melhor para todo mundo\u201d, afirma Rodrigo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto movimentos conservadores ganham reconhecimento institucional, grupos historicamente marginalizados, como a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+, continuam sem suporte, escuta e prote\u00e7\u00e3o. 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