{"id":15336,"date":"2025-08-04T10:57:04","date_gmt":"2025-08-04T13:57:04","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=15336"},"modified":"2025-08-04T10:57:06","modified_gmt":"2025-08-04T13:57:06","slug":"cronica-uma-noite-sao-joanense","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/cronica-uma-noite-sao-joanense\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica &#8211; Uma noite s\u00e3o-joanense"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Oswaldo C. Almeida<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Andar por S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei \u00e0 noite, especialmente pelo centro hist\u00f3rico, \u00e9 uma experi\u00eancia que oscila entre o fant\u00e1stico e o aterrorizante, como se Stephen King tivesse sido contratado para escrever uma novela da Globo.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade mergulha em sil\u00eancio. O \u00fanico som que voc\u00ea ouve \u00e9 o do vento gelado do inverno soprando pelas frestas das casas antigas, todas em um caprichado estilo colonial portugu\u00eas. As lamparinas, que um dia j\u00e1 brilharam \u00e0 base de \u00f3leo de baleia e querosene, ainda resistem atrav\u00e9s da eletricidade, banhando as ruas com um tom amarelado e fantasmal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cen\u00e1rio s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei ainda preserva caracter\u00edsticas dos seus prim\u00f3rdios, tombadas como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico. Tudo come\u00e7ou entre 1704 e 1705, quando foram descobertos dep\u00f3sitos de ouro nas encostas do Alto das Merc\u00eas. Isso atraiu gente de todo lado e fez nascer o Arraial de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, ou, para os \u00edntimos da \u00e9poca, Arraial Novo, em contraposi\u00e7\u00e3o ao Arraial Velho de Santo Ant\u00f4nio. Em 1713, o lugar foi elevado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de vila e rebatizado como S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, uma homenagem do governador Braz Baltazar da Silveira ao rei Dom Jo\u00e3o V.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, se voc\u00ea estiver subindo a Rua Santo Ant\u00f4nio em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja do Carmo, saiba que est\u00e1 trilhando o primeiro trajeto hist\u00f3rico da cidade. Oficialmente, as primeiras estradas documentadas est\u00e3o no Bonfim, mas antes disso j\u00e1 havia um caminho antigo por onde seguiam as bandeiras dos sertanistas, rumo ao Sert\u00e3o dos Cataguases. Dizem que esse era o tal &#8220;caminho geral do sert\u00e3o&#8221;, aberto l\u00e1 em 1674 por Fern\u00e3o Dias Pais que, claro, seguia trilhas ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nessa mesma rua que ficam as famosas Casas Tortas. Os mais c\u00e9ticos dizem que elas foram constru\u00eddas tortas propositalmente, para aproveitar melhor a luz solar. J\u00e1 outros acreditam que a inclina\u00e7\u00e3o \u00e9 culpa da infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua da chuva, que teria descal\u00e7ado os pilares e feito as casas se inclinarem.<\/p>\n\n\n\n<p>E se voc\u00ea estiver com o olho atento, vai notar que ali tamb\u00e9m fica a casa n\u00famero 33, palco de uma hist\u00f3ria que j\u00e1 virou lenda.<\/p>\n\n\n\n<p>Conta-se que um padre rec\u00e9m-chegado foi chamado numa noite fria por uma senhora vestida de preto. Ela pediu que ele fosse dar a extrema-un\u00e7\u00e3o ao seu filho, que estava gravemente enfermo. O padre atendeu ao pedido e cumpriu seu papel. No dia seguinte, ao saber da morte do rapaz, resolveu voltar \u00e0 casa para consolar a m\u00e3e. S\u00f3 que, ao chegar l\u00e1, encontrou apenas um retrato dela na parede. Indagou os vizinhos, e a resposta foi um soco no est\u00f4mago: a mulher havia falecido havia tr\u00eas meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 s\u00f3 uma das muitas hist\u00f3rias que S\u00e3o Jo\u00e3o guarda. Algumas fazem parte da colet\u00e2nea Contam que&#8230;, de Lincoln de Souza, que pode ser lida na biblioteca municipal e, segundo rumores, ser\u00e1 republicada pela prefeitura. O livro re\u00fane 11 contos colhidos da tradi\u00e7\u00e3o oral, indo desde a Mula Sem Cabe\u00e7a at\u00e9 um Defunto que o Diabo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros autores registraram lendas s\u00e3o-jaonenses, como o Antonio Gaio Sobrinho, com o relato da Jovem Desconhecida, onde uma mulher foi encontrada falecida junto a uma caixa d&#8217;\u00e1gua no espa\u00e7o que hoje \u00e9 o Bahamas. De acordo com o texto do autor, nunca foi reclamada, e seu nome ainda \u00e9 desconhecida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lendas nascem a partir da necessidade de explicar o mundo, nascem narrativas que envolvem o fant\u00e1stico e o sobrenatural. S\u00e3o uma forma da cultura imaterial, que falam tanto sobre da sociedade e da \u00e9poca que foram registrados. Por isso, \u00e9 t\u00e3o importante ter registros, e, acima de tudo, continuar tendo o costume de contar essas historias, como o projeto Lendas S\u00e3o Joanenses, que acontece mensalmente no Largo do Ros\u00e1rio. A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o foi no dia 18 de julho, e a pr\u00f3xima vai acontecer dia 22 de agosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, encerro essa cronica com um aviso: sempre ande com olhos atentos, pois uma noite, voc\u00ea pode acabar visitando ou sendo visitado por uma lenda no centro hist\u00f3rico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cr\u00f4nica &#8211; Andar por S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei \u00e0 noite, especialmente pelo centro hist\u00f3rico, \u00e9 uma experi\u00eancia que oscila entre o fant\u00e1stico e o aterrorizante, como se Stephen King tivesse sido contratado para escrever uma novela da Globo.<br \/>\nLeia a cr\u00f4nica e saiba mais sobre as lendas da &#8220;cidade dos sinos&#8221;!<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15337,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"cybocfi_hide_featured_image":"yes","footnotes":""},"categories":[714,109],"tags":[14],"class_list":["post-15336","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica-2","category-sao-joao-del-rei-microrregiao-de-sao-joao-del-rei","tag-sao-joao-del-rei"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15336","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15336"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15336\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15338,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15336\/revisions\/15338"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15337"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15336"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15336"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15336"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}