{"id":14663,"date":"2024-12-24T10:14:00","date_gmt":"2024-12-24T13:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=14663"},"modified":"2024-12-24T16:43:16","modified_gmt":"2024-12-24T19:43:16","slug":"natal-a-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/natal-a-brasileira\/","title":{"rendered":"Natal \u00e0 brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Por Igor Chaves<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ARVORE-DE-NATAL-CRONICA-IGOR-DEZ-24-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-14664\" style=\"width:622px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ARVORE-DE-NATAL-CRONICA-IGOR-DEZ-24-1024x576.png 1024w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ARVORE-DE-NATAL-CRONICA-IGOR-DEZ-24-300x169.png 300w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ARVORE-DE-NATAL-CRONICA-IGOR-DEZ-24-768x432.png 768w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ARVORE-DE-NATAL-CRONICA-IGOR-DEZ-24-1536x864.png 1536w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ARVORE-DE-NATAL-CRONICA-IGOR-DEZ-24.png 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Conex\u00e3o 123<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Parecia o fim do mundo quando sa\u00ed de casa hoje mais cedo: uma verdadeira cena de apocalipse. Fiquei um bocado parado no sinal, contando carros, motos, \u00f4nibus, e observando um amontoado de gente subindo o cal\u00e7ad\u00e3o. Um tanto de crian\u00e7as corria na pracinha, enquanto, do outro lado da rua, um supermercado lotado exibia filas que davam voltas. Os homens empurravam carrinhos abarrotados de caixas de cerveja, e as mulheres se agarravam a pacotes de chester como se a ave ainda pudesse sair voando. As lojas estavam cheias, as vendedoras de cabelo em p\u00e9, e um maldito menino fazia birra ao fundo. De repente, buzinaram uma vez, depois de novo. O sinal abriu, e uma caminhonete passou \u00e0 minha direita. Em cima do teto, um homem vestido de vermelho, com um gorro pontudo, jogava balas para cima. Aquele n\u00e3o era o apocalipse. Era apenas 23 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p>O Natal no Brasil \u00e9 sempre um evento. N\u00e3o dura um dia, n\u00e3o: ele dura tr\u00eas meses. Virou primeiro de novembro, e a gente j\u00e1 pega o banquinho para alcan\u00e7ar o maleiro do guarda-roupa e tirar uma caixa empoeirada, transbordando de bolinhas vermelhas, prateadas e douradas. Montar a \u00e1rvore de Natal leva uma semana porque o pisca-pisca est\u00e1 sempre queimado, e ir ao centro comprar um novo \u00e9 o mesmo que travar uma batalha. Depois disso, come\u00e7a: mensagem no grupo da fam\u00edlia para decidir se vai ter amigo-oculto; a namorada do primo perguntando se pode levar a m\u00e3e e a av\u00f3; e, claro, a escolha do card\u00e1pio da ceia, o ponto mais importante. Antes mesmo da Black Friday, a leitoa j\u00e1 est\u00e1 encomendada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas falta alguma coisa. Sempre falta alguma coisa. \u00c0s vezes \u00e9 um presente que foi remanejado ou um ingrediente esquecido da receita de tartelete. E a\u00ed come\u00e7a a correria: o tr\u00e2nsito, as buzinas, a multid\u00e3o. Ah, e claro, \u00e9 em dezembro tamb\u00e9m que come\u00e7a a faxina. A casa fica polida, um brilho que s\u00f3. Na semana do dia 20, os primeiros parentes j\u00e1 come\u00e7am a aparecer. As tias v\u00e3o de casa em casa, dividindo espa\u00e7o nas geladeiras para guardar as coisas. No dia 22, \u00e9 inevit\u00e1vel: algum tio decide comprar uma bandeja de amendoim verde horrorosa que ningu\u00e9m vai comer.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chega finalmente o dia 24, a coisa desanda. O telefone n\u00e3o para de tocar, porque algu\u00e9m esqueceu de comprar algo que, no fundo, ningu\u00e9m faz quest\u00e3o. A crian\u00e7ada corre molhada da piscina, sujando tudo pelo caminho. A cozinha vira um campo de batalha, com gente esbarrando em panelas quentes e discutindo se d\u00e1 tempo de fazer mais farofa. \u00c0 meia-noite, quando todo mundo pensa que vai comer, sua av\u00f3 decide rezar tr\u00eas ave-marias e cantar parab\u00e9ns para Jesus Cristo. Quando finalmente sentamos \u00e0 mesa, a comida j\u00e1 est\u00e1 fria, e todo mundo est\u00e1 cheio, porque passou a noite beliscando. Mas esse \u00e9 o esp\u00edrito do Natal, que n\u00e3o termina no dia 25. Ele segue at\u00e9 janeiro, porque a \u00e1rvore s\u00f3 ser\u00e1 desmontada no dia 6, e as sobras do peru v\u00e3o virar refei\u00e7\u00f5es improvisadas por semanas. Ainda tem o per\u00edodo de troca dos presentes \u2013 outra batalha, outra ida ao centro.<\/p>\n\n\n\n<p>O Natal brasileiro \u00e9 um evento, e \u00e9 assim que tem que ser. Ele n\u00e3o tem neve, su\u00e9teres ou pijamas combinando, tampouco meias na lareira. Ele tem blusa de alcinha, cheiro de protetor solar, m\u00fasica do Roupa Nova e a prefeitura gastando dinheiro em uma decora\u00e7\u00e3o meia-boca. O Natal brasileiro \u00e9 estar sentado numa cadeira de pl\u00e1stico, enrolado em uma toalha com o cabelo duro de cloro e o olho vermelho, tremendo de frio com um prato de arroz e carne na m\u00e3o. \u00c9 sentir, matar a saudade, rir e chorar. \u00c9 um caos bonito, orquestrado com maestria pela ideia de estar com a fam\u00edlia e transbordar amor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cr\u00f4nica &#8211; O Natal brasileiro \u00e9 um evento, e \u00e9 assim que tem que ser. Ele n\u00e3o tem neve, su\u00e9teres ou pijamas combinando, tampouco meias na lareira. 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