{"id":14564,"date":"2024-11-22T11:38:00","date_gmt":"2024-11-22T14:38:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=14564"},"modified":"2024-11-22T22:54:46","modified_gmt":"2024-11-23T01:54:46","slug":"dialogos-dos-saberes-o-racismo-alimentar-em-pauta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/dialogos-dos-saberes-o-racismo-alimentar-em-pauta\/","title":{"rendered":"Di\u00e1logos dos Saberes: O racismo alimentar em pauta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Por Igor Chaves<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"562\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/capa-dialogos-racismo-alimentar-nov-van.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14565\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/capa-dialogos-racismo-alimentar-nov-van.jpg 1000w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/capa-dialogos-racismo-alimentar-nov-van-300x169.jpg 300w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/capa-dialogos-racismo-alimentar-nov-van-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Frederico D\u00e1vila (TV Globo)<br><br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Novembro \u00e9 marcado por celebra\u00e7\u00f5es que remetem \u00e0 Consci\u00eancia Negra ao redor do pa\u00eds. Desde 2011, o 20\u00ba dia do m\u00eas lembra a mem\u00f3ria de Zumbi dos Palmares, s\u00edmbolo da resist\u00eancia contra a escravid\u00e3o no Brasil, e se coloca como um momento de luta frente ao preconceito. O racismo \u00e9 um mecanismo que perpetua a desigualdade, como aponta o professor doutor do curso de teatro da Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei (UFSJ), Adilson Siqueira. Essa estrutura, nos mais de 500 anos de Brasil, bate de frente com a dignidade. Falar em racismo \u00e9 tamb\u00e9m falar de acesso negado aos direitos humanos b\u00e1sicos, como casa, \u00e1gua e comida.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Adilson Siqueira \u00e9 tamb\u00e9m l\u00edder e pesquisador do Grupo Transdisciplinar de Pesquisa em Artes, Culturas e Sustentabilidade, que se dedica a quest\u00f5es que envolvem a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, a educa\u00e7\u00e3o, a negritude e o racismo. Ele explica que, nessa discuss\u00e3o sobre a desigualdade, devemos pensar em fatores que entendemos como o bem comum, seja a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, ou um sistema alimentar sustent\u00e1vel. \u201cA alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 um bem comum. Ent\u00e3o, \u00e9 um bem comum todo mundo lutar contra a fome\u201d, aponta. A inseguran\u00e7a alimentar, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o, e sim uma consequ\u00eancia: \u201cA fome n\u00e3o \u00e9 um acidente. A fome \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o do capitalismo. \u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o do neoliberalismo. Ent\u00e3o, a gente precisa estar trazendo essa discuss\u00e3o para focar como se d\u00e1 essa produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, n\u00fameros da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) apontam 2,5 milh\u00f5es de cidad\u00e3os na condi\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar severa. Para a popula\u00e7\u00e3o negra, o cen\u00e1rio \u00e9 ainda pior: dados do 2\u00ba Inqu\u00e9rito Nacional sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil (Vigisan) indicam que, entre 2021 e 2022, quase 20% dos lares brasileiros liderados por pessoas pretas e pardas enfrentaram a fome. \u00c9 o chamado racismo alimentar: a popula\u00e7\u00e3o negra sem direito ao alimento. \u201cA quest\u00e3o do racismo alimentar \u00e9 simples: quem \u00e9 o povo mais pobre? Se a fome \u00e9 perversa, ela \u00e9 mais perversa ainda com o povo preto\u201d, explica Concei\u00e7\u00e3o Maria do Carmo de Souza Costa, a Tutuca, que \u00e9 agricultora, pesquisadora e atuante na \u00e1rea de agroecologia e seguran\u00e7a alimentar, al\u00e9m de membro do F\u00f3rum Regional de Economia Solid\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o professor Adilson, o racismo e a fome, em concomit\u00e2ncia, somam \u00e0 ideia da produ\u00e7\u00e3o capitalista e resultam num eficiente mecanismo de controle. \u201cO racismo entra nessa hist\u00f3ria como uma afirma\u00e7\u00e3o do controle. Manter as periferias das cidades, manter as pessoas negras, pobres, em situa\u00e7\u00e3o de fome de certa maneira, ou \u00e0 beira da fome, \u00e9 uma forma poderosa de controle em todos os n\u00edveis\u201d, afirma. Agora, a justificativa para essa inequidade, como apontado, remonta \u00e0 hist\u00f3ria do Brasil e \u00e0s ideias perpetuadas desde ent\u00e3o. \u201c[Durante a escravid\u00e3o] j\u00e1 come\u00e7ou, al\u00e9m do aprisionamento, a ra\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia. A comida que o escravo comia era a m\u00ednima necess\u00e1ria para ele conseguir trabalhar no dia seguinte. Ent\u00e3o, quando a gente olha para o racismo alimentar, voc\u00ea v\u00ea que l\u00e1 na origem tem esse lugar, uma forma de domina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"512\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/dialogos-racismo-alimentar-1-1024x512.png\" alt=\"Imagem ilustrativa: pessoa com m\u00e3os vazias.\" class=\"wp-image-14566\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/dialogos-racismo-alimentar-1-1024x512.png 1024w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/dialogos-racismo-alimentar-1-300x150.png 300w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/dialogos-racismo-alimentar-1-768x384.png 768w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/dialogos-racismo-alimentar-1.png 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Getty Images<br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>O impacto dessa estrutura tamb\u00e9m se manifesta no chamado <em>nutric\u00eddio<\/em>, conceito criado pelo norte-americano Llaila Afrika, autor de <em>Nutricide: The Nutritional Destruction of the Black Race<\/em>. O termo evidencia a diferen\u00e7a nos alimentos que chegam ao prato da popula\u00e7\u00e3o negra. A dificuldade de acesso a alimentos saud\u00e1veis, apontados no Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira e essenciais para a manuten\u00e7\u00e3o da Soberania Alimentar e Nutricional (SAN), abrem espa\u00e7o para o consumo de ultraprocessados e transg\u00eanicos, e determinam o que pode ser chamado de deserto alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Tutuca critica a narrativa de que alimentos agroecol\u00f3gicos seriam inacess\u00edveis: \u201cCad\u00ea uma g\u00f4ndola escrita, alimentos sem veneno, alimentos agroecol\u00f3gicos [nos mercados]? Para os atacarejos, eles pensam que esse alimento vai sair muito mais caro. E n\u00e3o \u00e9 verdade. Ainda n\u00e3o temos, nessa regi\u00e3o, dentro dessas grandes redes de supermercados, os alimentos agroecol\u00f3gicos. Isso a gente precisa avan\u00e7ar\u201d. Tutuca tamb\u00e9m refor\u00e7a que, em um cen\u00e1rio s\u00e3o-joanense, as pol\u00edticas p\u00fablicas para combater a fome e o racismo alimentar carecem de maior integra\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o h\u00e1 um olhar amplo da pol\u00edtica p\u00fablica de seguran\u00e7a alimentar que pegue o agricultor e as necessidades do per\u00edodo urbano. \u00c9 muito solto, n\u00e3o est\u00e1 amarrado\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dessa forma que o racismo alimentar exige a mobiliza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas integradas, de maneira que remonte os j\u00e1 apontados bem comuns. \u00c9 uma discuss\u00e3o de sustentabilidade, democracia e justi\u00e7a social, como refor\u00e7a o professor Adilson. \u201cN\u00e3o importa onde voc\u00ea esteja, em que campo, em que \u00e1rea voc\u00ea esteja, coloque a justi\u00e7a social no meio disso. A\u00ed ela come\u00e7a a se tornar um elo\u201d, afirma. \u201cE, a partir desse elo, voc\u00ea olha, como \u00e9 que \u00e9 a democracia aqui nesse lugar onde a gente vive? Aqui nessa escola, como que ela \u00e9? Tem democracia minimamente? Tem ordem, mas n\u00e3o \u00e9 autoritarismo? A partir da justi\u00e7a social, voc\u00ea come\u00e7a a discutir a desigualdade\u201d.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 2011, o 20\u00ba dia do m\u00eas de novembro celebra a mem\u00f3ria de Zumbi dos Palmares, e se coloca como um momento de luta frente ao preconceito.<br \/>\nEssa estrutura social, nos mais de 500 anos de Brasil, bate de frente com a dignidade. 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