{"id":13575,"date":"2024-03-18T19:59:00","date_gmt":"2024-03-18T22:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=13575"},"modified":"2024-03-18T19:59:02","modified_gmt":"2024-03-18T22:59:02","slug":"o-novo-eu-nao-pertence-a-este-lugar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/o-novo-eu-nao-pertence-a-este-lugar\/","title":{"rendered":"O novo eu n\u00e3o pertence a este lugar."},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>\u201cDe qualquer forma, n\u00e3o se torne um estranho.\u201d <strong>Scott Street &#8211; Phoebe Bridgers<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Por: K\u00e9ssia Carolaine<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Des\u00e7o do \u00f4nibus j\u00e1 com aquela sensa\u00e7\u00e3o que me traz a dualidade: eu me sinto em casa e ao mesmo tempo \u00e9 um lugar completamente novo para mim. Atravesso a ponte e ou\u00e7o o ranger do ferro que me leva h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s. Eu amava vir pra c\u00e1, seja sozinha ou acompanhada. Aquela avenida \u00e9 muito especial para mim. Saindo do devaneio, percebo que estou chegando na esquina da rua onde a minha casa est\u00e1, aquela sensa\u00e7\u00e3o de conforto, alegria e paz me invade de imediato. \u00c9 como se eu estivesse chegando na casa de minha av\u00f3, sendo recebida com um caf\u00e9 quentinho e uma broa de fub\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando em casa, a sensa\u00e7\u00e3o de aconchego vai embora um pouco\u2026 Alguma coisa est\u00e1 diferente, ser\u00e1 que mudaram as plantas do lugar? A horta est\u00e1 cheia de mato tamb\u00e9m; a cozinha est\u00e1 com utens\u00edlios novos. Quando vejo minha m\u00e3e no sof\u00e1, esses pensamentos inquietantes se dissipam da minha mente. Dou-lhe um abra\u00e7o e batemos um papo de cinco minutinhos. Tenho que guardar minhas malas e de repente paro por um instante. Agora a casa tem dois quartos vazios, em qual deles devo dormir? Aquele que era dos meus irm\u00e3os ou aquele que sempre me acolheu, foi meu ref\u00fagio durante anos da minha vida? Decido ir para o quarto que era dos meus irm\u00e3os, j\u00e1 que est\u00e1 repaginado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tarde do dia seguinte, decido dar uma volta pela cidade a p\u00e9. Coloco uma roupa confort\u00e1vel, pego meu telefone, meus fones de ouvido e saio de casa. No aplicativo de m\u00fasica, coloco no aleat\u00f3rio e por alguma coincid\u00eancia, os primeiros acordes de <em>Scott Street <\/em>invadem meus ouvidos. \u201cpassando pela Rua Scott me sentindo como uma estranha\u2026\u201d Engra\u00e7ado o que a nostalgia faz com as pessoas. Constantemente me pego relembrando as diversas vezes que eu brincava aqui, nesta rua, achando que meu joelho ralado era o fim do mundo. Ao crescer e nos darmos conta da vida adulta, um machucado f\u00edsico n\u00e3o equivale a um por cento das dores e das percep\u00e7\u00f5es de estar crescendo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando dos meus devaneios, me vejo quase no centro da cidade. Quantas mem\u00f3rias e cenas come\u00e7aram a disparar na minha mente. Olho para o lado e vejo a biblioteca que eu tanto amava. Incont\u00e1veis horas que eu passava olhando livro por livro. Diversas idas naquele lugar para estudar para alguma prova ou fazer trabalhos escolares. Volto minha aten\u00e7\u00e3o para aquela pra\u00e7a e como se tiv\u00e9ssemos combinado, vejo minhas amigas de longa data chegando ali. Sabe aquela sensa\u00e7\u00e3o de lar? Foi o sentimento que me invadiu quando as vi.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c Voc\u00ea sente vergonha quando escuta meu nome?\u201d. \u00c9 neste trecho que eu paro a m\u00fasica para come\u00e7ar a engatar uma conversa com minhas amigas. Engra\u00e7ado, parece que a m\u00fasica est\u00e1 fazendo um paralelo com as coisas que estou vivendo hoje. Nos sentamos em um banco da pra\u00e7a e a conversa come\u00e7a com aqueles clich\u00eas de \u201cComo vai a vida em outra cidade?\u201d, \u201cE a faculdade como est\u00e1 indo?\u201d. At\u00e9 que em um certo momento, as conversas de praxe come\u00e7am a se tornar perguntas do tipo: \u201cVoc\u00eas se lembram quando a gente vai pra c\u00e1 e fic\u00e1vamos jogando conversa fora?, \u201cVoc\u00eas se lembram daquela vez que\u2026\u201d Neste momento parece que estamos assistindo um filme mas nossas cabe\u00e7as, cujas mem\u00f3rias s\u00e3o o plot da hist\u00f3ria. \u00c9, eu realmente senti falta delas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de algumas horas revisitando nosso passado, decido dar continuidade \u00e0 minha caminhada. Dou play na m\u00fasica novamente e deixo meus pensamentos irem longe, e quando volto para casa, passo por um caminho diferente. Me sinto uma intrusa nessa cidade. Tudo est\u00e1 diferente e ao mesmo tempo tudo est\u00e1 igual. A volta para a minha casa \u00e9 cheia de turbul\u00eancias na minha mente. Eu que sou uma pessoa que pensa demais e analisa demais as situa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o consigo compreender como essa dualidade pode existir. Um lugar que eu nasci, cresci e vivi por anos est\u00e1 igual e diferente? Isto \u00e9 meio que imposs\u00edvel, n\u00e3o \u00e9?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando em casa, vou direto para o quarto que deixei minhas coisas. De repente sinto um clique na minha cabe\u00e7a. Sim, esta cidade est\u00e1 igual e diferente ao mesmo tempo, mas uma coisa que mudou, tal qual as esta\u00e7\u00f5es do ano, foi eu. Parece que vivi mais de cinco anos em apenas um. Que loucura! Apesar disso, das mudan\u00e7as em mim, do futuro que me aguarda e do passado que deixei para tr\u00e1s, eu espero e desejo que uma coisa n\u00e3o mude\u2026 Que eu n\u00e3o me torne uma estranha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Des\u00e7o do \u00f4nibus j\u00e1 com aquela sensa\u00e7\u00e3o que me traz a dualidade: eu me sinto em casa e ao mesmo tempo \u00e9 um lugar completamente novo para mim. Atravesso a ponte e ou\u00e7o o ranger do ferro que me leva h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s. Eu amava vir pra c\u00e1, seja sozinha ou acompanhada. 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