{"id":12191,"date":"2023-05-01T12:28:40","date_gmt":"2023-05-01T15:28:40","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=12191"},"modified":"2023-05-01T12:29:32","modified_gmt":"2023-05-01T15:29:32","slug":"mao-terra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/mao-terra\/","title":{"rendered":"M\u00e3o Terra"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Geovana Nunes<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Esse-sonho-e-meu_-Foto_-Eduardo-Alves.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12190\" width=\"838\" height=\"629\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Esse-sonho-e-meu_-Foto_-Eduardo-Alves.jpg 720w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Esse-sonho-e-meu_-Foto_-Eduardo-Alves-300x225.jpg 300w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Esse-sonho-e-meu_-Foto_-Eduardo-Alves-200x150.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 838px) 100vw, 838px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Esse sonho \u00e9 meu &#8211; Foto: Eduardo Alves<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu nasci, meu pai era carpinteiro. E quando ele nasceu, meu av\u00f4 era carpinteiro. Quando meu av\u00f4 nasceu, seu pai era carpinteiro. E quando o pai do pai do meu pai nasceu, seu pai era carpinteiro. Nossa fam\u00edlia tinha grandes narinas sens\u00edveis ao cheiro da serragem. Dedos calejados e alguns n\u00e3o tinham um ou outro dedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu pai e todos os pais antes dele tamb\u00e9m eram pescadores, tamb\u00e9m plantavam milho, arroz, feij\u00e3o, mandioca e cana. Faziam m\u00f3veis de madeira nobre que aquelas pobres pessoas que n\u00e3o podem ficar no sol (sen\u00e3o vira camar\u00e3o) adoravam sentir e sentar em cima. Gostavam das folhas talhadas nas gamelas, mas n\u00e3o pareciam pensar muito nas folhas que ca\u00edam da madeira entalhada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A gente pensava. Pensava em cada bicho que matava, para que a barriga n\u00e3o matasse a gente. Pensava em cada machadada que fazia o bra\u00e7o doer. Ou no barulho da motosserra ou no ranger da serra sabre. A gente pensava sempre nos dedos que v\u00ednhamos perdendo. E como a colheita era pior sem eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Tive uma penca de irm\u00e3os. Todos carpinteiros. Todos bichos de mato. Bichos de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Meus netos e meus sobrinho-netos\u2026s\u00f3 usam as \u00e1rvores para subir e comer. Cavucam a terra s\u00f3 para esconder tesouros e depois encontrar eles. T\u00eam d\u00f3 dos peixes e devolvem eles para a \u00e1gua. N\u00e3o t\u00eam for\u00e7a para remar o barco e nem pele judiada de sol.<\/p>\n\n\n\n<p>Acham \u201cmaneiro\u201d cansar os polegares no telefone. Ser\u00e1 que d\u00e1 pra perder o dedo sem serra?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eles n\u00e3o pensam nas \u00e1rvores que caem. Nem nos bichos que morrem. N\u00e3o pisam na terra. Est\u00e3o sempre de t\u00eanis, em cima da moto. Carregando comida pronta. Comida que n\u00e3o foram eles que fizeram. Comida que vem sem o nome do dono. N\u00e3o \u00e9 o p\u00e3o do nh\u00f4 Josu\u00e9. \u00c9 um trem estrangeiro, que eu n\u00e3o sei falar o nome.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Coisa muito, muito estranha. Porque quem compra tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nome. \u00c9 \u201cn\u00famero do pedido\u201d. Meus netos n\u00e3o s\u00e3o mais \u201cele \u00e9 neto do Raimundo\u201d. Agora eles s\u00e3o o \u201cmenino que entrega no restaurante Fog\u00e3o de Casa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Que casa \u00e9 essa? Eu n\u00e3o sei. Nunca vi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu nasci, meu pai era carpinteiro. E quando ele nasceu, meu av\u00f4 era carpinteiro. Quando meu av\u00f4 nasceu, seu pai era carpinteiro. E quando o pai do pai do meu pai nasceu, seu pai era carpinteiro. Nossa fam\u00edlia tinha grandes narinas sens\u00edveis ao cheiro da serragem. 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