{"id":12152,"date":"2023-04-25T19:11:03","date_gmt":"2023-04-25T22:11:03","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=12152"},"modified":"2023-04-26T18:47:12","modified_gmt":"2023-04-26T21:47:12","slug":"entrevista-com-guido-bolleti-autor-de-um-som-azul","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/entrevista-com-guido-bolleti-autor-de-um-som-azul\/","title":{"rendered":"Entrevista com Guido Boletti, autor de \u201cUm som azul\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Ana Fagundes, Christopher Faria e J\u00falia Diniz<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>&nbsp;<br><strong><em>\u201cFoi ent\u00e3o que eu investi na pintura e notei que eu poderia compor melhor com amarelo, verde, laranja&#8230; do que com d\u00f3, r\u00e9, mi, f\u00e1.\u201d<\/em><\/strong><br><br><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/WhatsApp-Image-2023-04-25-at-09.34.03-905x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12155\" width=\"840\" height=\"950\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Guido Boletti concedeu uma entrevista para a VAN em meio aos seus quadros da mostra \u201cUm som azul\u201d, exposta no Museu Regional de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei. Guido nasceu em Mil\u00e3o. Mas, h\u00e1 16 anos se mudou para Belo Horizonte, onde viveu por seis anos. Por mais que tenha gostado da vida na capital, encantou-se com o interior e resolveu se mudar para S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, onde vive desde 2013, no Campo das Vertentes.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O artista pl\u00e1stico trabalha com vitrais, cer\u00e2micas, serigrafia, joias e ilustra\u00e7\u00f5es e j\u00e1 participou de v\u00e1rias exposi\u00e7\u00f5es individuais e coletivas, tanto em cidades da It\u00e1lia, quanto do Brasil. Os quadros apresentados s\u00e3o uma experi\u00eancia envolvendo os sentidos. Guido brinca com a percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, propondo uma nova maneira de absorver as cores ao explorar o ritmo e a harmonia em suas composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o em cartaz \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o da primeira parte do projeto que foi apresentado em Lodi (It\u00e1lia), em 2022, com o t\u00edtulo &#8220;Un suono blu&#8221; (\u201cUm som azul\u201d, em italiano), que comemora os 30 anos de carreira do artista. Ambas as exposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o ligadas a uma composi\u00e7\u00e3o musical do pr\u00f3prio Guido Boletti, funcionando como trilha sonora de sua arte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Guido, qual e como foi o seu primeiro contato com a arte? Tanto com a que voc\u00ea se encantou quanto com aquela que voc\u00ea quis reproduzir.<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um dos momentos importantes, que me lembro, foi com minha m\u00e3e, que pintava em casa. No come\u00e7o, ela n\u00e3o pintava quadros. Em 1947, antes dos 20 anos, ela pintava bonecas, quadrinhos&#8230; s\u00f3 depois de seu divorcio com meu pai que passou a pintar quadros. Acho que n\u00e3o tem uma conex\u00e3o direta com minha arte. Mas, creio que possa ter certa conex\u00e3o, sim. Quanto a mim, antes de pensar em ser pintor, teve uma temporada em que eu fazia camisetas pintadas \u00e0 m\u00e3o. Mas, (era) mais por necessidade de fazer uma graninha. Mas, logo eu me interessei muito pela m\u00fasica \u2013 piano e saxofone. Eu at\u00e9 chegava a compor. Mas, fui percebendo que aquilo n\u00e3o estava dando certo, que talvez eu n\u00e3o tivesse o talento necess\u00e1rio. Foi ent\u00e3o que eu investi na pintura. E notei que eu poderia compor melhor com amarelo, verde, laranja&#8230; do que com d\u00f3, r\u00e9, mi, f\u00e1&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea diria que foi nesse momento que voc\u00ea decidiu o que queria produzir?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu acredito que foi um processo me encontrar na minha arte. &nbsp;N\u00e3o sei dizer se teve um momento exato; foi um caminho. Aos 29 anos sofri um acidente e fiquei totalmente cego do olho esquerdo. Naquele momento, por exemplo, a pintura foi uma terapia. Nesse processo todo eu pude pensar \u201cO que eu gosto de fazer? O que eu gosto de pintar?\u201d. \u00c9 como se fosse um processo de lapida\u00e7\u00e3o. Tem que lapidar para tirar toda a beleza da pedra, n\u00e9? Hoje eu sinto minha pintura muito mais leve. Sinto que cheguei ao meu melhor momento. Mas, ainda quero conseguir deixa-la mais leve ainda!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bem, \u201cUm som azul\u201d comemora 30 anos desse processo. O que o senhor fala sobre essa exposi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nas tr\u00eas palavras j\u00e1 se nota a m\u00fasica e a pintura. Mas, por que azul? N\u00e3o posso negar que \u00e9 a minha cor predileta. Durante o meu caminho o azul se demostrou uma cor predominante; eu sempre senti mais intimidade com essa cor. Cr\u00edticos de arte e colegas j\u00e1 me falaram que eu trabalho com essa cor de uma forma peculiar. \u201cO Som Azul\u201d come\u00e7a da\u00ed \u2013 eu n\u00e3o quis escolher um t\u00edtulo banal para comemorar meus 30 anos de carreira. Na comemora\u00e7\u00e3o de 20 anos, eu comemorei da forma cl\u00e1ssica: peguei todos os meus trabalhos e mostrei o que tinha feito durante esse tempo. Aqui, nos 30 anos, eu decidi que queria fazer a comemora\u00e7\u00e3o com um pouco mais de maturidade, ao inv\u00e9s de apenas mostrar o que eu fiz no passado, mostrar onde estou; mostrar que estou mudando e n\u00e3o estou morto como artista.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pode nos contar sobre alguma das suas produ\u00e7\u00f5es mais recentes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Todos os quadros que n\u00e3o tem peixes s\u00e3o recentes. Elas s\u00e3o uma cole\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, de antes da pandemia, que juntei para expor, com os \u00faltimos que pintei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/WhatsApp-Image-2023-04-25-at-09.31.31-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12153\" width=\"838\" height=\"1117\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/WhatsApp-Image-2023-04-25-at-09.31.31-768x1024.jpeg 768w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/WhatsApp-Image-2023-04-25-at-09.31.31-225x300.jpeg 225w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/WhatsApp-Image-2023-04-25-at-09.31.31.jpeg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 838px) 100vw, 838px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Essa foi feita logo que voltei da It\u00e1lia; nasceu nesse esp\u00edrito: representa o fim de uma exposi\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 outra. Pode parecer completamente abstrata, mas vou mostrar que n\u00e3o \u00e9. A obra surgiu pelo meu amor pela f\u00edsica qu\u00e2ntica, porque, al\u00e9m da m\u00fasica, tamb\u00e9m tem o teatro, a escrita, a f\u00edsica que tamb\u00e9m posso usar para me expressar. N\u00e3o posso vir e fazer uma palestra sobre f\u00edsica sendo que eu n\u00e3o sou f\u00edsico. Seria arrogante. Mas, eu posso fazer a minha retrata\u00e7\u00e3o. O que eu pensei foi: mesmo se considerarmos que o tempo e o espa\u00e7o s\u00e3o mat\u00e9ria, eu sou uma formiga, n\u00e3o causaria nenhuma vibra\u00e7\u00e3o no tempo. Mas quando dois buracos negros se colidem&#8230; &nbsp;a colis\u00e3o deles \u00e9 capaz de parar o tempo. Por isso \u201cO sono de Cronos\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Olhando para tr\u00e1s, para seus 30 anos de trabalho, quais as dificuldades voc\u00ea diria que superou, quais ainda existem e quais surgiram?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>A principal do in\u00edcio \u00e9 encontrar lugares onde expor sua arte. Claro que voc\u00ea pode come\u00e7ar a expor, por exemplo, no corredor do shopping. Eu mesmo j\u00e1 fiz isso. N\u00e3o \u00e9 esnobando. Mas, um m\u00fasico que toca em um bar, ele sonha em chegar a um palco para as pessoas ouvirem. &nbsp;N\u00e3o continuar em um bar, em que \u00e0s vezes as pessoas n\u00e3o est\u00e3o nem ouvindo ele. A outra dificuldade, claro, \u00e9 sustentar sua arte \u2013 pagar as despesas das tintas, das telas, do tempo que voc\u00ea gasta, espa\u00e7o onde pintar&#8230; Devo dizer que, como autodidata, passei por dificuldades diferentes de artistas que come\u00e7am pelo mundo acad\u00eamico. Tem sempre a quest\u00e3o de ser conhecido, ter contatos e come\u00e7ar a vender sua arte, al\u00e9m de ser necess\u00e1rio ser mais autocr\u00edtico. Mas a maior dificuldade mesmo \u00e9 sempre acreditar no que faz. Ser honesto com a sua arte e acreditar que voc\u00ea tem alguma coisa a dizer com ela. Eu sempre busquei n\u00e3o deixar a pintura na m\u00e3o, at\u00e9 porque ela nunca me deixou tamb\u00e9m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Guido, tem alguma hist\u00f3ria espec\u00edfica em alguma exposi\u00e7\u00e3o que te marcou de maneira especial?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sempre \u00e9 especial, ouvir um elogio, ver as pessoas felizes com minha arte&#8230; Uma coisa de que me recordo \u00e9 de uma menina de 15 anos, que me contou que s\u00f3 gostava de preto e branco. Mas depois de vir at\u00e9 minha exposi\u00e7\u00e3o, disse que ia reavaliar isso e deixar com que as cores entrassem pra vida dela novamente. Isso \u00e9 um retorno imenso, grandioso. Essa fase costuma ser complicada&#8230; o que essa reinser\u00e7\u00e3o de cores pode significar, \u00e9 muito emocionante. Eu consegui despertar algo bom nesse per\u00edodo que costuma ter um turbilh\u00e3o de sentimentos conflitantes. Fico muito alegre por ter proporcionado isso com&nbsp;minha&nbsp;arte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual conselho ou dica voc\u00ea daria para novos artistas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dedique-se. Se coloque a disposi\u00e7\u00e3o da sua arte sem pudor e sem vergonha, no sentido de que, o que ela te pedir, voc\u00ea tenta dar. A arte n\u00e3o \u00e9 uma coisa; a arte est\u00e1 no dia a dia. N\u00e3o quer dizer que voc\u00ea tenha que pintar todos os dias, mas todos os dias estar pensando no que poderia fazer. Al\u00e9m de sempre absorver outras fontes \u2013 como foi o quadro sobre f\u00edsica qu\u00e2ntica \u2013, mas tamb\u00e9m outros artistas, outras exposi\u00e7\u00f5es. V\u00e1 a exposi\u00e7\u00f5es dos grandes, dos pequenos, grandes museus, mas tamb\u00e9m nas galerias menores. Outra coisa \u00e9 sempre ter um olhar virgem, sabe? Livre de julgamentos. Um senso-cr\u00edtico \u00e9 importante. Mas, n\u00e3o julgue. Abaixe as suas barreiras. Esteja aberto pra aprender. Estude sempre.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ainda entre seus quadros, que depois de suas respostas proporcionavam novas interpreta\u00e7\u00f5es, perguntamos a Guido quais s\u00e3o suas ambi\u00e7\u00f5es depois de 30 anos de carreira.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mais 30 anos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 dispon\u00edvel para visita\u00e7\u00e3o at\u00e9 o dia 28\/05. O Museu Regional de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei fica localizado na Rua Marechal Deodoro, 12, no Centro (Largo Tamandar\u00e9). A entrada \u00e9 gratuita e os hor\u00e1rios de funcionamento s\u00e3o: de segunda \u00e0 sexta, de 10h \u00e0s 17h, aos s\u00e1bados de 13h \u00e0s 17h e aos domingos de 9h \u00e0s 13h. O Museu tamb\u00e9m conta com um acervo hist\u00f3rico muito rico, igualmente aberto para visita\u00e7\u00e3o. Para mais informa\u00e7\u00f5es, acesse: <a href=\"about:blank\">https:\/\/linktr.ee\/MuseuRegionaldeSJDR<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para conhecer um pouco mais sobre Guido Boletti: <a href=\"about:blank\">https:\/\/www.guidoboletti.net\/<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFoi ent\u00e3o que eu investi na pintura e notei que eu poderia compor melhor com amarelo, verde, laranja&#8230; do que com d\u00f3, r\u00e9, mi, f\u00e1.\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12155,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"cybocfi_hide_featured_image":"yes","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[152,14],"class_list":["post-12152","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria","tag-cultura","tag-sao-joao-del-rei"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12152","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12152"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12152\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12160,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12152\/revisions\/12160"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12155"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}