{"id":11854,"date":"2022-12-05T07:14:06","date_gmt":"2022-12-05T10:14:06","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=11854"},"modified":"2022-12-02T07:20:01","modified_gmt":"2022-12-02T10:20:01","slug":"erasmo-fica-o-amar-e-o-chorar-duma-multidao-agora-solitaria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/erasmo-fica-o-amar-e-o-chorar-duma-multidao-agora-solitaria\/","title":{"rendered":"Erasmo: fica&nbsp; o amar e o chorar duma multid\u00e3o agora solit\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Escrito por: Lucas Guimar\u00e3es<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Revisado por: Samantha Souza<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/erasmo-carlos.png\" alt=\"Erasmo Carlos\" class=\"wp-image-11855\" width=\"474\" height=\"646\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Erasmo Carlos, lend\u00e1rio nome da m\u00fasica brasilei, em 1970. Foto: Jos\u00e9 Santos, Ag\u00eancia O Globo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Gigante Gentil <\/em>se explica pelos quase dois metros do carioca Erasmo Esteves, o Erasmo Carlos, que, humildemente, parou em 1,93m de altura. O apelido brincava, tamb\u00e9m, com a complexidade l\u00fadica de um dos &#8211; n\u00e3o s\u00f3 literalmente &#8211; maiores cantores e compositores brasileiros. A figura que, ao mesmo tempo, era o gigante que causava estranheza pela sua estatura de goleiro de ponta e pela <em>fama de mau<\/em>, tamb\u00e9m impressionava pelo jeito atencioso de se relacionar. Mesmo que saibamos que <em>N\u00e3o Existe Saudade no Cosmos<\/em>, Erasmo deixou-nos com um buraco em sua partida no \u00faltimo dia 22, aos 81 anos. Erasmo Carlos era muita coisa e todas elas ao mesmo tempo. O Tremend\u00e3o rejeitava a dualidade simplista dos opostos. Ele era amar e chorar; multid\u00e3o e solid\u00e3o; o novo e o velho. N\u00e3o caminhava entre os p\u00f3los, ele ocupava os dois, ao mesmo tempo, os dois o formavam e o moviam &#8211; sempre isso e aquilo. Gigante e gentil &#8211; no que foi e na m\u00fasica que ainda sempre ser\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Nome de peso da antropofagia l\u00edrica da jovem guarda dos anos 60, Erasmo foi \u00edcone de um movimento musical e social que tomou o Brasil de assalto. Pela televis\u00e3o, lan\u00e7aram moda, revolucionaram a imagem, e a juventude se fez rebeldia embebida por influ\u00eancias vindas de fora em um am\u00e1lgama com o ser brasileiro, aqui, no terceiro mundo de uma sociedade que queria por tudo mudar.. Caminhando pelo Rock n\u2019Roll e a MPB, o Tremend\u00e3o fez hist\u00f3ria sendo um dos que abriram a porta para a maior gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos do Brasil. Continuou, ent\u00e3o, mais vivo do que nunca produzindo nas d\u00e9cadas seguintes &#8211; em um di\u00e1logo constante com o novo e uma liga\u00e7\u00e3o memor\u00e1vel com o velho. Al\u00e9m das parcerias cl\u00e1ssicas com Roberto Carlos e Rita Lee, gravou, tamb\u00e9m, com nomes gigantes de outras gera\u00e7\u00f5es, como Renato Russo e Emicida, e at\u00e9 mesmo o &#8211; destoante &#8211; Marcelo Camelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua discografia, o amar \u00e9 ponto fundamental para Erasmo. Amor entende-se na complexidade de amar, do que \u00e9 genuinamente humano e move o ser. Apesar de seu pen\u00faltimo disco, <em>Amar \u00c9 Isso<\/em> (2018), ser uma obra de e sobre a paix\u00e3o carnal, amar n\u00e3o era restrito a isso. A pr\u00f3pria ideia do amor rom\u00e2ntico &#8211; limpo &#8211; \u00e9, por vezes, negado por Erasmo. N\u00e3o configurando uma ode contra amar, pelo contr\u00e1rio. \u00c9 um entendimento de amor como puls\u00e3o de intensidade, de viver, do amor como estado de amar. <em>Dois Animais na Selva Suja da Rua<\/em> vivenciam o amar; <em>s\u00e3o iguais, dois animais que se animam<\/em>, e que pode <em>o caminho cansar nosso corpo<\/em> &#8211; e, se pensarmos que <em>gente certa \u00e9 gente aberta, se o amor chamar, eu vou<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse amar n\u00e3o anula, por\u00e9m, o chorar de Erasmo. Coloca-se, em 1971, que <em>Agora Ningu\u00e9m Chora Mais<\/em>, mas o choro ainda escorreu pelo saboroso tempo de vida e carreira do Tremend\u00e3o. Em um ato da mais bela rebeldia po\u00e9tica, a primeira faixa do seu \u00e1lbum derradeiro, de 2022, tinha que categoricamente indicar uma poss\u00edvel l\u00e1pide ao <em>vasca\u00edno -pel\u00e9zista<\/em>: \u201c<em>Nasci para Chorar<\/em>\u201c. Nasceu, de fato, para chorar e amar, junto, &#8211; por vezes um pouco mais um, \u00e0s vezes um pouco mais outro, mas sempre os dois. Podemos, j\u00e1, desconsiderar o incessante questionamento de Caetano, de<em> pra qu\u00ea rimar amor e dor<\/em>. A rima acontece na pr\u00f3pria viv\u00eancia que abastece as duas coisas, \u00e9 natural, oras. N\u00e3o precisa perguntar tanto, Ca\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>O amar e o chorar s\u00e3o parte da mesma puls\u00e3o de sonho do carioca. Apesar de rom\u00e2ntico-cr\u00f4nico em seu pen\u00faltimo disco, Erasmo era algu\u00e9m que tinha uma percep\u00e7\u00e3o de amar como parte substancial de um processo coletivo, social e pol\u00edtico. Quando versava: \u201c<em>N\u00e3o acredito no dito maldito que o amor j\u00e1 morreu, tenho f\u00e9 que meu pa\u00eds ainda vai dar amor pro mundo, um amor t\u00e3o profundo e t\u00e3o grande que vai reviver quem morreu<\/em>\u201d, Erasmo alimentava um transformar por um amar coletivo. Antes, na mesma can\u00e7\u00e3o, espremeu que: \u201c<em>Me curo da vida sofrida sentida que deram pra mim<\/em>\u201d, &#8211; assim, se o amar \u00e9 parte da vida coletiva-social-pol\u00edtica, o chorar tamb\u00e9m est\u00e1 costurado em um sofrer que n\u00e3o \u00e9 individual e nem individualizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Amar e chorar s\u00e3o umbilicalmente constru\u00eddos juntos \u00e0s no\u00e7\u00f5es de multid\u00e3o e solid\u00e3o na obra de Erasmo. Outros p\u00f3los antag\u00f4nicos que, em tese, n\u00e3o se tocam.Versar que \u201c<em>As pessoas que caminham, seja l\u00e1 para onde for, \u00e9 uma gente que \u00e9 t\u00e3o minha<\/em>\u201d \u00e9 demonstrar esse car\u00e1ter apaixonado pelo viver coletivo, pelas potencialidades do outro, e pela possibilidade de construir com e pelos outros. Sem que impe\u00e7a, contudo, que este mesmo sujeito, regado de um amor transformador, sinta-se <em>um beija-flor perdido no pr\u00f3prio jardim<\/em>, <em>com a vontade dispon\u00edvel de n\u00e3o existir<\/em>. Como no poema de Ferreira Gullar, gravado na voz de Fagner d\u00e9cadas depois: \u201c<em>Uma parte de mim \u00e9 multid\u00e3o, Outra parte, estranheza e solid\u00e3o<\/em>\u201d. Galhos de um mesmo ser que passam por um mesmo sonhar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com esse combust\u00edvel d\u2019alma que Erasmo fez um dos mais belos discos da m\u00fasica brasileira, \u201c<em>Carlos, Erasmo<\/em>\u201d, de 1971. Com um jovem Erasmo pulsando vida e sonho de uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o morre, o disco \u00e9 coisa fina de um sentimento que at\u00e9 hoje se descende. Ainda<em> \u00c9 Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo<\/em>. Carregada de um amar rebelde e sonhador, esta se faz como a mais linda can\u00e7\u00e3o de uma ideia de viver e acreditar, n\u00e3o s\u00f3 a melhor m\u00fasica de um mero disco ou de um m\u00edsero cantor. \u201c<em>Descansar n\u00e3o adianta, quando a gente se levanta, quanta coisa aconteceu<\/em>\u201d \u00e9 um grito-convite do que se pode pensar e fazer na rela\u00e7\u00e3o entre o ser, o sentir e o construir. \u00c9 um dos mais belos escritos que se pode almejar em escrever.<\/p>\n\n\n\n<p>Se com <em>26 Anos de Vida Normal<\/em>, Erasmo tinha medo de ler <em>no edital \u201cmorreu em vida lendo jornal\u201d<\/em>, agora pode descansar, que sua vida passou bem longe de qualquer marasmo. Tremend\u00e3o foi, que nem o seu apelido, gigante na m\u00fasica brasileira e permanecer\u00e1 vivo em cada verso singelamente deixado pelas suas garras de g\u00eanio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gigante Gentil se explica pelos quase dois metros do carioca Erasmo Esteves, o Erasmo Carlos, que, humildemente, parou em 1,93m de altura. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11855,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"cybocfi_hide_featured_image":"","footnotes":""},"categories":[13],"tags":[152,57],"class_list":["post-11854","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","tag-cultura","tag-musica"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11854"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11854\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11856,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11854\/revisions\/11856"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11855"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}