{"id":11849,"date":"2022-11-30T23:40:37","date_gmt":"2022-12-01T02:40:37","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=11849"},"modified":"2022-12-02T07:13:10","modified_gmt":"2022-12-02T10:13:10","slug":"a-dor-de-uma-mulher-do-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/a-dor-de-uma-mulher-do-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"A Dor de uma Mulher do Fim do Mundo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Por Clarice Muscalu<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Revisado por: Samantha Souza<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/elzasoares-pedrodimitrow-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11848\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/elzasoares-pedrodimitrow-1024x768.jpg 1024w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/elzasoares-pedrodimitrow-300x225.jpg 300w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/elzasoares-pedrodimitrow-768x576.jpg 768w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/elzasoares-pedrodimitrow-200x150.jpg 200w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/elzasoares-pedrodimitrow.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Era um dia de quinta chuvoso. N\u00e3o bastasse o c\u00e9u nublado, a semana parecia intermin\u00e1vel. A roupa colorida e florida disfar\u00e7ava a solid\u00e3o enquanto caminhava pela avenida que, estranhamente, estava mais vazia do que nunca. Tudo parecia funcionar em uma constante harmonia: aquele c\u00e9u que trovejava, a dor no calcanhar de tanto andar, a l\u00e1grima escorrendo pelo rosto inexpressivo. Lembrou de quando Elza Soares cantou \u201cMeu choro n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de carnaval\u201d; e se imaginar como a mulher do fim do mundo, por mais que melanc\u00f3lico, trouxe um pouco de paz e acalento para aquele fr\u00e1gil cora\u00e7\u00e3o, porque sabia que outras tamb\u00e9m se sentiam assim. Sua solid\u00e3o era compartilhada e, acima de tudo, compreendida.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cA multid\u00e3o avan\u00e7a como um vendaval, me joga na avenida que n\u00e3o sei qual \u00e9\u201d continua a melodia em sua cabe\u00e7a. Muitos passaram por ela naquele dia. Muitos tentaram beijar sua m\u00e3o e muitas outras partes de seu corpo, sem consentimento, mas aquela dor n\u00e3o lhe abalou. Nada consegue abalar uma alma que j\u00e1 se perdeu, nem mesmo a inconveni\u00eancia de terceiros. Certo que muitas mulheres entenderiam tudo, mas \u00e9 quase certo, tamb\u00e9m, que talvez n\u00e3o ajudasse em nada.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A avenida parecia est\u00e1tica. O tempo passava enquanto cantarolava a m\u00fasica em sua cabe\u00e7a e suas pernas caminhavam, mas tudo \u00e0 sua volta se tornava insignificante. S\u00f3 conseguia pensar em como se sentia incompleta, em como sua vidinha miser\u00e1vel, sem um puto no bolso, se tornava cada vez mais descart\u00e1vel. Das poucas lembran\u00e7as que guardava com carinho, vinha sempre a voz de sua av\u00f3: &#8211; \u201cO que te quebrou, minha filha?\u201d. A resposta nem ela sabia. Pensava que j\u00e1 tinha nascido quebrada, que o \u201cquebrado\u201d precedia sua exist\u00eancia neste mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foi ent\u00e3o que o barulho de uma buzina e a luz forte do farol de um carro lhe chamaram a aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Olha onde anda, mo\u00e7a!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se imaginou como Macab\u00e9a. Por pouco n\u00e3o foi atropelada e, mais uma vez, n\u00e3o foi o suficiente para lhe abalar. Infinitos boletos n\u00e3o pagos em cima do balc\u00e3o da cozinha, uma casa caindo aos peda\u00e7os, um ex-marido abusivo que n\u00e3o pagava pens\u00e3o e um trabalho como gar\u00e7onete em um bar de esquina j\u00e1 cumpriam esse papel. Porque pras mulheres do fim do mundo \u00e9 assim mesmo, a vida j\u00e1 vem quebrada, sem a possibilidade de pedir socorro.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu naquele dia de quinta com a esperan\u00e7a de encontrar algo pelo qual valesse a pena viver. N\u00e3o encontrou. Mas, como todas as mulheres do fim do mundo, segue caminhando e lutando, procurando motivos pelos quais deve cantar at\u00e9 o fim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Chegando em casa, ouvia a voz de Elsa ecoando em sua cabe\u00e7a: &#8211; \u201cMe deixem cantar at\u00e9 o fim\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um dia de quinta chuvoso. N\u00e3o bastasse o c\u00e9u nublado, a semana parecia intermin\u00e1vel. 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