{"id":11742,"date":"2022-10-28T10:26:19","date_gmt":"2022-10-28T13:26:19","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=11742"},"modified":"2022-10-28T10:26:20","modified_gmt":"2022-10-28T13:26:20","slug":"quero-gritar-quero-poder-gritar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/quero-gritar-quero-poder-gritar\/","title":{"rendered":"Quero gritar. Quero poder gritar."},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Autoria de: <\/strong>Christopher Faria<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Revisado por: <\/strong>Samantha Souza<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/quero-gritar.png\" alt=\"Quero gritar. Quero poder gritar.\" class=\"wp-image-11744\" width=\"864\" height=\"872\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/quero-gritar.png 338w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/quero-gritar-297x300.png 297w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/quero-gritar-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 864px) 100vw, 864px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Lembro a primeira vez que fui calado. Eu era um \u201ccalado!\u201d, velado por tr\u00e1s da voz de minha m\u00e3e ou de meu pai quando eu estava falando demais ou fazendo demais e eles me diziam um gentil (mesmo que na \u00e9poca eu n\u00e3o entendia o qu\u00e3o gentil isso era e ficava emburrado) \u201cquietinho, filho!\u201d. Ou do meu irm\u00e3o quando ele soltava um \u201ccala a boca!\u201d nada velado e cheio de riso e boas mem\u00f3rias quando brinc\u00e1vamos juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Estou falando da vez que queria falar algo que era importante para mim e me impediram. Negligenciaram-me, como se minha voz n\u00e3o fosse relevante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma mem\u00f3ria que machuca, porque, depois que voc\u00ea \u00e9 calado uma vez, podem acontecer duas coisas: ou voc\u00ea aceita a m\u00e3o sobre sua boca ou voc\u00ea se rebela, afasta essa m\u00e3o e grita se for necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 8 anos, nessa primeira vez, eu aceitei.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa que n\u00e3o te contam \u00e9 que n\u00e3o importa o quanto machuca ser silenciado, quando voc\u00ea aceita isso, as pr\u00f3ximas n\u00e3o machucam tanto. E voc\u00ea come\u00e7a a nem perceber que est\u00e1 sendo oprimido. A m\u00e3o que cobre sua voz come\u00e7a a suar e voc\u00ea come\u00e7a a saborear o sal. Sem se importar que esse sal \u00e9 jogado nas suas feridas, deixando-as maiores. Maiores, maiores e maiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7a com um professor n\u00e3o respeitando sua opini\u00e3o. Depois passa para voc\u00ea n\u00e3o sabendo como se posicionar para seus pais. Depois para amigos que riem de voc\u00ea e n\u00e3o com voc\u00ea. Depois para um namorado que n\u00e3o respeita suas vontades. Depois para um pol\u00edtico que fala algo que n\u00e3o te representa, mas mesmo assim voc\u00ea acata. Depois para uma sociedade que fala, mas sem uma voz que pare\u00e7a com a sua.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece um efeito cascata exagerado, mas ele \u00e9 real. Come\u00e7a com um simples \u201cque pergunta burra\u201d e acaba em \u201cvamos cortar as verbas para as universidades\u201d. Come\u00e7a com um simples \u201ctudo bem, era burra mesmo essa pergunta\u201d e acaba em \u201cn\u00e3o posso fazer nada contra esses cortes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o cheguei nesse \u00faltimo n\u00edvel. Em algum momento, felizmente, cansei. Senti a m\u00e3o que cobria minha boca cobrir meu nariz tamb\u00e9m e de repente eu estava sufocado. Afogando com o suor. Foi em 2019. Com 16 anos. Quando algu\u00e9m que tinha ideais que n\u00e3o eram as minhas come\u00e7ou a governar o pa\u00eds. Tudo o que senti foi dor e revolta. Por saber que eu n\u00e3o podia reclamar. Ele dizia que odiava pessoas que eram iguais a mim, e mesmo assim eu n\u00e3o podia reclamar. Ele incentivava \u00f3dio, mas mesmo assim eu n\u00e3o podia reclamar. Ele era o \u00f3dio, e eu n\u00e3o podia reclamar.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque eu sempre soube que ele era assim (at\u00e9 porque ele nunca fez quest\u00e3o de esconder). Eu sabia e n\u00e3o fiz nada. N\u00e3o fui em nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o, nem sequer me desgastei escrevendo \u201c#elenao\u201d em minhas redes sociais. N\u00e3o discuti com meus pais e amigos. N\u00e3o falei nada para ningu\u00e9m do que eu pensava sobre aquela candidatura hedionda. Mantive-me calado. Em sil\u00eancio. Acostumado com aquela m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 percebi o quanto pessoas iguais a mim, acostumadas, havia contribu\u00eddo para que isso acontecesse quando ele se elegeu. Passei noites me perguntando se seria diferente se todas as pessoas tivessem se rebelado contra essa m\u00e3o. Eu sei que seria. E, decepcionado comigo, explodi.<\/p>\n\n\n\n<p>Arranquei a m\u00e3o, empurrei as pessoas que a mantinha firme sobre minha boca, e comecei a gritar.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz quatro anos que grito.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz quatro anos que fui aprendendo como gritar. Como ser ouvido.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz quatro anos que fui me juntando a vozes que se parecem com a minha para que possamos ganhar for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>E, sem d\u00favidas alguma, j\u00e1 tentaram me calar outras vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>E todas as vezes eu gritei mais alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque n\u00e3o quero mais engolir suor. N\u00e3o quero mais ser sufocado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero expor o que penso. Quero me juntar \u00e0s causas que se importam com casos importantes. Quero incentivar outros \u201cacostumados\u201d a se rebelarem. Quero ter o direito de rebelar. Quero ter o direito de reclamar. Quero ter o direito de ser ouvido.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero poder escrever cartazes sobre pol\u00edtica e t\u00ea-los pregados nas paredes de onde estudo porque defendem esse lugar, sem medo de que outras pessoas os arranquem ou os deturbem.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero sair nas ruas gritando \u201cN\u00e3o \u00e9 balburdia, \u00e9 rea\u00e7\u00e3o. Os estudantes n\u00e3o t\u00eam medo dele n\u00e3o\u201d, para que ele saiba que realmente n\u00e3o temos medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero ter orgulho de dizer que, mesmo se mais quatro anos de trevas paire sobre o Brasil, eu n\u00e3o fui conivente com nada disso. Eu lutei para que isso mudasse. Eu lutei para que outras pessoas tivessem coragem de gritar e se juntasse a mim para que nossa voz ficasse mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o posso mentir.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho medo de que as trevas se concretizem.<\/p>\n\n\n\n<p>Queria poder dizer que \u00e9 uma certeza sermos vitoriosos, mas n\u00e3o posso. Principalmente quando j\u00e1 perdemos tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro turno dessas elei\u00e7\u00f5es, o dono das trevas ficou em segundo lugar por poucos pontos percentuais, enquanto todos os seus agentes ganhavam. Lutamos e gritamos tanto, mas mesmo assim tivemos o deputado federal com os ideais dessa treva mais votado de todos os tempos. Parte dessa treva se garantiu por mais quatro anos em muitos estados. Lutamos tanto e j\u00e1 perdemos muito. Tudo o que temos s\u00e3o pequenas vit\u00f3rias e a esperan\u00e7a de que a maior derrota n\u00e3o aconte\u00e7a dia 30.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 essa esperan\u00e7a que nos guiar\u00e1 para a urna. \u00c9 ela que far\u00e1 com que, mesmo se vencermos, continuemos lutando para que essa treva seja totalmente extinta. \u00c9 ela que far\u00e1 com que, mesmo se perdermos, continuemos lutando por um pa\u00eds melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero ser representado por algu\u00e9m que me deixe dizer que n\u00e3o estou bem com essa representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero ser representado por algu\u00e9m que n\u00e3o zombe da minha exist\u00eancia ou sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero ser representado.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o irei mais aceitar algu\u00e9m me calando, algu\u00e9m arrancando os cartazes que dizem o que eu penso, algu\u00e9m que buzina para uma manifesta\u00e7\u00e3o contra o que est\u00e1 sendo manifestado, algu\u00e9m que menospreza o que digo ou que acredito, ou melhor, n\u00e3o me deixa dizer ou acreditar.<\/p>\n\n\n\n<p>E farei de tudo para ajudar outras pessoas a n\u00e3o aceitar tamb\u00e9m. Porque aquele menino de 8 anos n\u00e3o podia, n\u00e3o conseguia, n\u00e3o tinha for\u00e7a e nem ajuda para virar para seu professor e dizer: \u201cn\u00e3o existem perguntas burras, \u00e9 meu direito ser respondido\u201d; mas o homem de 20 anos que hoje sou pode, consegue \u2013 com suas pr\u00f3prias for\u00e7as e com todas as alheias \u2013, virar para seu presidente e dizer: \u201cVoc\u00ea, n\u00e3o!\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro a primeira vez que fui calado. Eu era um \u201ccalado!\u201d, velado por tr\u00e1s da voz de minha m\u00e3e ou de meu pai quando eu estava falando demais ou fazendo demais e eles me diziam um gentil (mesmo que na \u00e9poca eu n\u00e3o entendia o qu\u00e3o gentil isso era e ficava emburrado) \u201cquietinho, filho!\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11744,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"cybocfi_hide_featured_image":"yes","footnotes":""},"categories":[714],"tags":[],"class_list":["post-11742","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica-2"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11742"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11742\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11745,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11742\/revisions\/11745"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11744"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}