{"id":10604,"date":"2019-01-31T12:48:19","date_gmt":"2019-01-31T14:48:19","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/?p=10604"},"modified":"2019-01-31T12:48:51","modified_gmt":"2019-01-31T14:48:51","slug":"a-mulher-de-cabelo-azul","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/a-mulher-de-cabelo-azul\/","title":{"rendered":"A mulher de cabelo azul"},"content":{"rendered":"<p>Entramos na casa atr\u00e1s da ponte, ex-pectativas a mil. Cachorros pulando, caixas empilhadas e arte por todos os cantos. Do corredor perto da sala veio meio correndo, meio andando, Geralda: a mulher mais viva que j\u00e1 conhecemos. O cabelo azul com franja, sua marca registrada, acompanha \u00f3culos redondos e um sorriso imenso e solto. Seus olhos possuem um brilho t\u00edpico de quem j\u00e1 viu muito e conhece a vida.<\/p>\n<p>Contamos nossa proposta, enquanto ela sentava \u00e0 vontade, juntamente com cachorros em seu colo. Perguntamos, primeiro, como encarava as mudan\u00e7as, e seu rosto, pensativo responde que, aos 63 anos, lida bem com o pr\u00f3prio corpo, apesar de algumas insatisfa\u00e7\u00f5es. \u201cEu tiro assim de boa, essa coisa do corpo ir se modificando. \u00c0s vezes acordo de manh\u00e3 e fico olhando para minha pele e vejo assim que \u2018t\u00e1\u2019 meio fl\u00e1cida, cheia de ruguinha, me es- panta ao ver que n\u00e3o era assim. A m\u00e3o, a pele vai ficando fina. Ah, tem uma bolsinha aqui, esse neg\u00f3cio n\u00e3o tinha. Mas tudo bem n\u00e9, faz parte da hist\u00f3ria da gente.\u201d Contou como n\u00e3o se sente \u00e0 vontade com as pessoas de sua idade, por terem gostos e perfis t\u00e3o diferentes e como suas escolhas de vida s\u00e3o constantemente questionadas. \u201cPara que fazer faculdade?\u201d, \u201cPara que pintar o cabelo de azul?\u201d. Diz que a conversa \u2018rola\u2019 mais solta com pessoas mais jovens.<\/p>\n<p>Sua trajet\u00f3ria em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei \u00e9 cheia de perdas e descobertas. Disse que aqui, j\u00e1 perdeu um cachorro e tr\u00eas gatos. E, com a voz embargada, conta tamb\u00e9m da perda do filho. Fala, sabiamente, que a vida, ao mesmo tempo \u00e9 t\u00e3o fr\u00e1gil e t\u00e3o forte.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/cabeloa.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10606\" src=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/cabeloa.png\" alt=\"\" width=\"647\" height=\"833\" srcset=\"http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/cabeloa.png 647w, http:\/\/jornalismo.ufsj.edu.br\/van\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/cabeloa-233x300.png 233w\" sizes=\"auto, (max-width: 647px) 100vw, 647px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A cer\u00e2mica \u00e9 considerada por ela um dos maiores ganhos da cidade. Os olhos brilham ao contar<br \/>\nque, na mesma manh\u00e3, horas antes de chegarmos, chorou de emo\u00e7\u00e3o ao refletir sobre a cer\u00e2mica. Como da lama, do barro, coisas tidas como sujas, algo extraordin\u00e1rio pode ser retirado. \u201cO processo dela \u00e9 como o nosso. A gente vai tirando as coisas feias, que n\u00e3o gosta, se lava, limpa e depois se modela, constr\u00f3i. Depois passa pelo fogo, que queima tudo e dali sai uma coisa maravilhosa, que voc\u00ea fez! Voc\u00ea pensou um dia, teve um desejo, entendeu um projeto e fez.\u201d Para al\u00e9m da alma de artista, Geralda tamb\u00e9m carrega uma hist\u00f3ria de luta. Filha de um militar atuante da repress\u00e3o, fala sobre a vergonha que carrega. \u201cNunca ningu\u00e9m levantou a voz para dizer que \u00e9 filha de um torturador. \u00c9 uma dor muito grande e uma vergonha imensa.\u201d<\/p>\n<p>Em contra-partida, come\u00e7ou desde cedo a se envolver em movimentos pela anistia e mais tarde, no movimento feminista. Desenvolveu um projeto em que, por meio do bordado e da conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, buscava o empoderamento de outras mulheres. \u201cDescobri que quando voc\u00ea chega para uma mulher e fala que seu marido a oprime, ela responde: n\u00e3o, de jeito nenhum. Mas, quando voc\u00ea conta a hist\u00f3ria da princesa que beijou o sapo, questionam porque a princesa teve essa atitude. A mulher tem que aceitar aquela coisa feia, que vem para ela e, se cuidar dele direitinho, vai virar um pr\u00edncipe? Ah, me poupe n\u00e9?!\u201d. Reflete, ainda, sobre o longo caminho que ainda temos que percorrer, por uma exist\u00eancia mais justa. \u201cAs pessoas \u00e0s vezes falam \u201cfeminismo para qu\u00ea?\u201d Porque \u00e9 necess\u00e1rio! \u00c9 onosso espa\u00e7o, nosso respeito, nossa dignidade, nossa diferen\u00e7a! O mundo \u00e9 todo masculino, e eu acho que o mundo t\u00e1 uma merda.\u201d<\/p>\n<p>A mulher tem que aceitar aquela coisa feia me poupe n\u00e9?! Conversamos um pouco mais e logo a entrevista se encerra. No lugar mais inesperado, encontramos uma senhora verdadeiramente m\u00e1gica. Como a Lua Minguante, n\u00e3o h\u00e1 nada de velho nela, mas na realidade um po\u00e7o t\u00e3o profundo de sabedoria que n\u00e3o tem dimens\u00e3o. Como a pr\u00f3pria disse: \u201cenquanto estamos vivos, n\u00e3o estamos velhos para nada\u201d.<\/p>\n<p>Texto\/VAN:\u00a0Rafaella Azevedo e Samara S.M<br \/>\nFoto\/VAN: Rafaella Azevedo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entramos na casa atr\u00e1s da ponte, ex-pectativas a mil. Cachorros pulando, caixas empilhadas e arte por todos os cantos. 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